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Inflação e gargalos no fornecimento afetam produção industrial de setembro

A produção industrial do Brasil teve um novo recuo em setembro, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta quinta-feira (4). No trimestre, a queda foi de 1,1%.

Claudia Perdigão, pesquisadora do Ibre-FGV, avalia que a indústria brasileira entrou 2021 com uma continuidade da recuperação de 2020, mas enfrentou alguns reveses. Um dos principais envolve os gargalos nas cadeias de fornecimento, o que encare os custos de produção.

Além disso, o cenário de inflação alta tem levado os consumidores a reduzir seus gastos, e a queda da demanda afeta a produção industrial. A crise hídrica, que ainda não acabou, também encarece custos e afeta a produção industrial.

Outro fator é o fim do Auxílio Emergencial, que representou uma queda no poder de compra da população.

“O segmento sofreu reduções, a última avaliação, a divulgação da sondagem da indústria, mostra uma queda da situação, mas mais em um movimento de acomodação do que em queda em si”, avalia a pesquisadora.

Ela afirma que o indicador de confiança do setor está próximo dos 100 pontos, o que mostra que ele “olha para o futuro entendendo que a situação vai se estabilizar. Temos gargalos, perspectiva de redução da produção, tendência mais pessimista, então é uma estabilização com previsão de manutenção de um cenário mais desfavorável”.

Em relatório, a equipe de Macroeconomia da Genial Investimentos afirmou que a produção industrial chegou a ser afetada pelo recrudescimento da pandemia no começo do ano, com a volta de restrições.

Agora, porém, é a dificuldade em obter matéria-prima em meio ao contexto de retomada da demanda com a vacinação que afeta o indicador. “Com isso, cronogramas de produção foram muito prejudicados, com consumidores adiando compras. Muitas vendas foram canceladas diante da insatisfação de clientes pagarem preços mais elevados”, diz o documento.

O relatório também diz que a indústria tem enfrentado uma escassez de estoques envolvendo vários itens, o que encarece os custos dos produtos e leva ao repasse aos consumidores.

“O setor industrial passa por escassez de matéria-prima, com elevação de despesas operacionais, prejudicando vendas e expectativas para o setor”. Os analistas também afirmam que as perspectivas para outubro são negativas.

A produção industrial tem crescimento de 7,5% no acumulado do ano, e de 6,4% no de 12 meses, mostrando uma recuperação em relação a 2020. Entretanto, o setor ainda está 3,2% abaixo do nível pré-pandemia.

“O cenário não deve mudar no curto prazo, a gente estima que o setor industrial deve melhorar ao longo de 2022, mas mais a partir do segundo semestre”, diz Eduardo Ferman, economista da Genial Investimentos. Segundo ele, os riscos de racionamento e problemas para o setor com energia são pequenos, mesmo com o impacto com a alta nas contas de energia.

Desempenho dos setores

“O que a gente pode destacar é que, diferentemente de outros meses em que a queda era bastante espalhada nos setores, nesse mês ela se concentrou em grupos importantes”, afirma Ferman, economista da Genial Investimentos.

Segundo o levantamento do IBGE, o índice de setembro foi impactado principalmente pelas quedas nos setores alimentício (-1,3%) e de metalurgia (-2,5%). Os dois tinham registrado avanço no mês anterior.

A equipe de Macroeconomia da Genial Investimentos afirmou que a queda no setor de alimentação está ligada a “questões climáticas adversas que prejudicaram a produção de cana-de-açúcar. Além disso, esse segmento também sofreu impactos com a suspensão das exportações de carnes para China”.

Já Perdigão afirma que a queda também está ligada a uma demanda menor por parte da população, refletindo o cenário inflacionário.

No caso da metalurgia, a pesquisadora associa a queda ao cenário desfavorável para a economia. Além disso, “nós tivemos um bom desempenho no segmento de bens de capital [em geral, maquinário] devido aos investimentos grandes no setor de agropecuária, e isso tem caído em 2021”.

Enquanto a produção metalúrgica está 8,6% acima do nível pré-pandemia, a alimentícia está 7,4% menor.

As outras quedas ocorreram nos segmentos de couro, artigos para viagem e calçados (-5,5%), outros equipamentos de transporte (-7,6%), bebidas (-1,7%), indústrias extrativas (-0,3%), móveis (-3,7%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-1,7%).

Já entre as altas, estão as indústrias ligadas aos produtos farmoquímicos e farmacêuticos (6,5%), outros produtos químicos (2,3%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (1,0%) e máquinas e equipamentos (1,9%).

Também tiveram alta na produção a indústria de celulose, papel e produtos de papel (1,2%), a de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (1,7%) e a de produtos do fumo (6,6%).

Considerando a divisão do IBGE entre “grandes categorias econômicas”, a maior queda foi entre os bens de capital (-1,6%). Apenas as indústrias de bens de consumo e de bens semiduráveis e não duráveis tiveram alta na produtividade, de 0,7% e 0,2%, respectivamente.


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