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BC coloca inflação de 2024 no radar para justificar possível fim de ciclo, dizem analistas

A Selic teve sua décima segunda alta consecutiva nesta quarta-feira (3), num longo ciclo de aperto monetário que começou em março de 2021. A taxa básica da economia nunca havia tido tantos reajustes seguidos, mas deve ter chegado no seu valor final, ou muito perto dele, segundo economistas ouvidos pelo CNN Brasil Business.

“O Comitê sugere em seu comunicado que o atual ciclo de aperto está caminhando para seu desfecho, ao sugerir que avaliará a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, em sua próxima reunião’, dizem Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama, e Elisa Andrade, analista de macroeconomia, em nota conjunta.

“Nossa leitura é de que, apesar de deixar a porta entreaberta para nova elevação de 0,25 p.p., a probabilidade maior é que a taxa fique nesses 13,75% por longo tempo”.

Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, julga que o ciclo de alta se encerrou nesta quarta-feira. “A gente não achava que ele ia terminar o ciclo hoje, mas entendo que a comunicação valida essa percepção”.

Apesar de ter sinalizado que o fim está bem próximo, o BC admite que pode não atingir sua previsão de inflação a 4,6% para 2023. Para não continuar elevando os juros, que já se encontram em território bastante restritivo,  o BC começa a olhar para 2024 como parte do horizonte relevante.

“Como o modelo deles está gerando uma inflação de 4,6%, muito acima da meta, a saída do BC para não continuar subindo juros, foi trabalhar com horizonte relevante da política monetária de 18 meses. Nessa janela, o que o modelo diz para eles é que, lá no primeiro trimestre de 2024, a inflação vai recuar para 3,5%, muito próxima da meta para aquele ano. Então ele está usando essa janela móvel como argumento para encerra o ciclo de juros”, diz Gabriel de Barros, economista-chefe da Ryo.

Em comunicado divulgado após a reunião desta quarta, a instituição diz que as projeções de inflação para 2022 e 2023 estão sujeitas a “impactos elevados associados às alterações tributárias entre anos-calendário. Assim, o Comitê optou neste momento por dar ênfase à inflação acumulada em doze meses no primeiro trimestre de 2024, que reflete o horizonte relevante, suaviza os efeitos diretos decorrentes das mudanças tributárias, mas incorpora seus impactos secundários sobre as projeções de inflação relevantes para a decisão de política monetária”, diz.

O BC revisou as projeções de inflação, incluindo os efeitos tributários das medidas aprovadas pelo Congresso (PEC dos Benefícios), e espera agora IPCA de 6,8% em 2022, 4,6% em 2023 e 2,7% em 2024.

Com essas revisões, “o cenário que não deveria requerer novos ajustes”, diz Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter. No entanto, a economista ressalta que “no balanço de riscos, ainda pesam as incertezas sobre potenciais medidas fiscais em 2023 que possam causar novas pressões inflacionárias”.

A decisão de aumentar em mais 0,25 ponto percentual a Selic em setembro estará muito condicionada aos desdobramentos do cenário global e do cenário doméstico, diz Barros, da Ryo Asset.

O economista indica que existem três variáveis na avaliação do Banco Central: o cenário de inflação norte-americana, o cenário geopolítico e o cenário doméstico – ou seja, as expectativas de inflação no Brasil e o contexto político eleitoral.

Além disso, Barros avalia que o comunicado do BC mostra que a estratégia do banco para não continuar com o ciclo de alta foi a de trabalhar com horizonte relevante da política monetária de 18 meses.

Para o economista-chefe da MB Associados e especialista CNN em Economia, Sergio Vale, a expectativa por parte do mercado financeiro de que esse seria o último aumento da taxa não deve se concretizar.

“O Banco Central sinalizou mais uma alta adicional, indo para 14% na próxima reunião. O que mostra uma preocupação do banco com os próximos dois anos, especialmente, com o ano de 2024”.

Para Vale, a percepção da instituição é de que a “batalha contra a inflação já está perdida para o ano que vem”. Logo, a preocupação se dará com a inflação de 2024.

“Agora o BC não quer perder o ano de 2024, já que vai ter passado o pior da pandemia, a guerra na Ucrânia já vai estar mais encaminhada, a questão das commodities, a questão de energia. O BC quer agora, passada toda essa turbulência que estamos vivendo nesse momento, ter as rédeas da inflação em 2024. Para isso acontecer, ele está subindo um pouco mais essa Selic no momento”.

O especialista acredita que a taxa deve ter uma lenta queda, finalizando o ano de 2023 em torno de 11,5%, “para tentar de fato tentar controlar as expectativas de 2023 e 2024”, disse.

Débora Nogueira, economista-chefe da Tenax Capital, considera apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando “significativamente em território ainda mais contracionista”, o que indica mais um ajuste.

A economista também trabalha com a expectativa de que o ciclo deva se encerrar com uma taxa de 14% ao ano e espera que a Selic fique neste patamar até, pelo menos, o terceiro trimestre de 2023.

“Ao dar ênfase à projeção de inflação do primeiro trimestre de 2024, o Comitê se abstém de tratar potenciais efeitos nocivos da inflação de curto prazo”, diz a Eleven Financial em nota. “Adicionalmente, avalia os efeitos secundários das medidas tributárias como benignos, sem considerar potenciais efeitos-renda nos preços”.

A casa de análise ressalta que o Copom substituiu o termo “antevê” por “avaliará a necessidade” de uma elevação de juros. “Na nossa leitura, as leituras prospectivas benignas da inflação de julho e agosto, em conjunto à comunicação de cautela, deverá servir de justificativa para uma interrupção no ciclo de alta”. A casa espera Selic de 13,75% ao final do ano.


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