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Você sabia que os siriris são cupins com asas?

Siriris, popularmente conhecidos como aleluias, são cupins com asas — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Siriris, popularmente conhecidos como aleluias, são cupins com asas — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Em dias quentes, principalmente depois de chuva, é comum observar insetos voando próximo à luz. Conhecidos popularmente como siriris ou aleluias, eles intrigam muita gente quando, ao final do voo, perdem as asas e se deslocam pelo chão. Afinal, que bicho é esse?

“Os siriris são cupins com asas. Todas as espécies de cupins têm uma fase reprodutiva, que é quando produzem os alados. Esses indivíduos dispersam da colônia da mãe para fundar novas colônias. No mundo existem cerca de três mil espécies de cupins, e no Brasil aproximadamente 300”, explica o biólogo e professor da Universidade Federal do ABC, Tiago Carrijo - que também coordena um projeto de divulgação científica com cupins.

Para entender como funciona a “produção” dos siriris é necessário detalhar a dinâmica de uma colônia, onde uma única fêmea é capaz de se reproduzir. “A colônia funciona como um indivíduo que é formado pelos operários, pelos soldados, pelo rei e pela rainha. O casal real é responsável por reproduzir os operários e os soldados e, quando a colônia já está madura o suficiente, também geram indivíduos alados. O objetivo é que esses filhotes se dispersem para fundar novas colônias, ou seja, o casal gera futuros reis e rainhas que saem do cupinzeiro, se reproduzem e expandem a população da espécie”, detalha.

Os indivíduos alados voam em busca de parceiros para reproduzir e formar novas colônias — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Os indivíduos alados voam em busca de parceiros para reproduzir e formar novas colônias — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Os cupins alados nascem iguais aos irmãos operários e soldados e, depois, desenvolvem as asas. “Com o passar do tempo eles fazem mudas (quando trocam o exoesqueleto) e desenvolvem estruturas que dão origem às asas”.

De acordo com o pesquisador, a proporção de indivíduos alados dentro de uma colônia varia muito de espécie pra espécie. “Em algumas só 1% da colônia são alados, mas muitas vezes essas colônias são tão grandes que esse 1% pode representar milhares deles. Outras espécies, com colônias menores, podem chegar a ter até 30 ou 40% de siriris”, diz Tiago, que reforça a sazonalidade da produção dos alados. “Temos que lembrar que eles não são produzidos durante o ano todo, mas sim em um determinado período, e apenas quando a colônia já está madura o suficiente. Na maioria das espécies os siriris voam nas primeiras chuvas depois da seca, que em boa parte do Brasil geralmente ocorre entre os meses de setembro e janeiro.

Os cupins nascem iguais e, durante o tempo, desenvolvem as asas — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Os cupins nascem iguais e, durante o tempo, desenvolvem as asas — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Comparados a outros insetos os siriris são péssimos voadores. “Eles não voam muito bem, até porque o voo tem função rápida: eles não costumam voar mais do que 100 metros, muitas vezes menos do que isso. Voam o suficiente para dispersar e não se reproduzir com indivíduos da mesma colônia”, destaca o pesquisador.

Colônias diferentes da mesma espécie geralmente soltam os alados no mesmo dia e horário para que os indivíduos se encontrem durante a revoada

Rainha (maior), ninfa (branco) e operário (menor) — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Rainha (maior), ninfa (branco) e operário (menor) — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Cupins na natureza

Com tamanha diversidade de espécies de cupins, varia também o tamanho dos indivíduos: dos menores, com cerca de um centímetro de comprimento (com asa), até espécies com cinco centímetros (considerando a asa também).

Mesmo pequenos esses insetos têm papel fundamental na natureza: além de ser base da cadeia alimentar, servindo de alimento para várias espécies, os cupins são importantes decompositores de matéria orgânica. “Têm algumas poucas espécies que chegam a comer madeira viva, algumas outras comem madeira seca bem dura, outras que se alimentam de madeira já em decomposição, e tem uma diversidade grande de cupins que se alimentam de húmus. Pensando ecologicamente, esse últimos estão fazendo um papel muito próximo do das minhocas, que é o da reciclagem do solo", diz.

Colônias abrigam de centenas a milhares de cupins — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Colônias abrigam de centenas a milhares de cupins — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

No cardápio de algumas outras espécies de cupins estão ainda as gramíneas, folhas secas e em alguns casos raros, líquens.

“Quando a gente pensa em cupins imaginamos insetos muito pequenos, mas quando analisamos a abundância deles (e a biomassa) percebemos a relevância para os ecossistemas, principalmente em áreas secas, onde as espécies são fundamentais na decomposição da matéria orgânica, e possuem participação importante nos ciclos do carbono e nitrogênio no solo”, explica o pesquisador, que destaca dados interessantes sobre a quantidade de cupins no mundo.

“Existe uma estimativa que considera que os animais terrestres domesticados, como o gado, representam 100 megatoneladas de biomassa em todo o planeta. Os seres humanos representam 60, e todos os outros vertebrados terrestres representam só 9 megatoneladas. Aí vêm os cupins, com um total de 50 megatoneladas, seguidos pelas formigas com 70, e os demais artrópodes com 80. Ou seja, os cupins sozinhos - com cerca de 3 mil espécies no mundo, representam uma parcela grande de biomassa. Então quando você pensa que toda essa biomassa está realizando decomposição e ciclagem de nutrientes, dá para ter uma ideia da importância desses bichos na natureza”, completa.

Rei e rainha são os únicos responsáveis por reproduzir nas colônias — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Rei e rainha são os únicos responsáveis por reproduzir nas colônias — Foto: Tiago Carrijo/Arquivo Pessoal

Fartura de alimento

Tiago explica que a época da revoada dos cupins (siriris) é sinal de uma grande oferta de alimento para demais espécies como pássaros, lagartos, outros insetos, cobras e aracnídeos.

“Pesquisadores brasileiros chegaram a um número muito interessante: na Caatinga, local onde tem uma deficiência grande de alimento para os animais em boa parte do ano, quando os alados revoam, em um metro quadrado pode cair mais de 160 indivíduos. Alguns deles, bem menos de 1%, vão conseguir fundar novas colônias. Todos os outros 99,9% vão ser alimento de outros animais”, destaca.

Nome popular

Em busca de respostas sobre os nomes populares da espécie, o pesquisador consultou colegas cientistas que indicaram algumas possibilidades. "Suspeitamos que 'aleluia' pode ter relação com a ocorrência dos siriris após as chuvas, como uma comemoração do período chuvoso. Também pode ter relação com o formato do inseto alado, que lembra uma santa. No caso de 'siriris' encontramos textos que indicam uma dança indígena que leva o mesmo nome, só não sabemos ao certo se a dança inspirou o apelido dos cupins alados ou vice versa", completa Tiago.

No mundo existem cerca de três mil espécies de cupins; Brasil é casa para aproximadamente 300 espécies — Foto: Arte/Giulia Bucheroni

No mundo existem cerca de três mil espécies de cupins; Brasil é casa para aproximadamente 300 espécies — Foto: Arte/Giulia Bucheroni


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