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Como um mamífero sobrevive se alimentando exclusivamente de sangue? Entenda a dieta dos morcegos-vampiros

O morcego-vampiro-comum é hematófago, ou seja, se alimenta do sangue de mamíferos como cavalos e bois — Foto: Maria Clara Nascimento/Arquivo Pessoal

O morcego-vampiro-comum é hematófago, ou seja, se alimenta do sangue de mamíferos como cavalos e bois — Foto: Maria Clara Nascimento/Arquivo Pessoal

Como ter uma dieta balanceada? De acordo com os nutricionistas uns dos segredos é ter variedade e moderação nas refeições. Proteína, carboidratos, vitaminas e vários outros componentes são necessários para a sobrevivência do ser humano. Mas, se pensarmos em outros mamíferos, o cenário muda. Há os carnívoros, os que consomem somente frutas, os herbívoros, e também aqueles que sobrevivem 100% de sangue.

Só que essa alimentação, conhecida como hematófaga, é exclusiva de apenas três espécies de mamíferos no mundo todo.Entre as mais de 1400 espécies de morcegos conhecidas pela ciência, o trio dos únicos morcegos-vampiro ocorre no Brasil: morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngi) e morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata).

  • As únicas três espécies de morcegos-vampiro do mundo ocorrem por todo território brasileiro, assim como do Sul do México até o Norte da Argentina;
  • Eles não sobrevivem em jejum;
  • Compartilham alimento entre indivíduos do mesmo grupo;
  • O padrão metabólico das espécies favorece o voo, porque o morcego fica puro músculo, sem gordura. A aerodinâmica do corpo é perfeita para a locomoção;
  • Pesquisa recente indica que as espécies perderam genes ao longo do processo evolutivo, o que justifica a dieta exclusiva de sangue;
  • Morcegos-vampiros têm a capacidade de armazenar mais sangue que o próprio peso corporal

Morcego-vampiro-de-pernas-peludas se alimenta de sangue de aves de médio e grande porte — Foto: Vinícius C. Cláudio

Morcego-vampiro-de-pernas-peludas se alimenta de sangue de aves de médio e grande porte — Foto: Vinícius C. Cláudio

Conseguir extrair tudo que é preciso para sobreviver se alimentando somente de sangue, portanto, é algo único e raro no mundo animal, o que gera inúmeras perguntas à ciência. A curiosidade acerca do tema foi o que levou a bióloga Mariella Freitas a estudar esse comportamento há quase 25 anos, focando principalmente no morcego-vampiro-comum.

“Explorar o sangue como recurso para a alimentação é uma dieta muito diferente e bastante problemática, porque no sangue há muita proteína, muito ferro e baixo teor de carboidrato. Nós quisemos estudar esses animais para entender o que esses morcegos têm no metabolismo que permite explorar essa dieta diferente e por que eles evoluíram para chegar nesse padrão. Qual o benefício de explorar sangue enquanto dieta?”, conta a especialista.

Para explicar melhor ela faz uma comparação: a dieta dos humanos conta com mais de 55% de carboidrato e o resto é composto por um pouco de lipídios e proteínas, enquanto o sangue de bovinos (principais presas dos morcegos-vampiro-comum) tem na matéria 93% de proteína, com 1% de carboidrato.

Além do excesso de proteína, que é dificilmente excretada, processada, digerida e absorvida, o baixo conteúdo de carboidratos faz com que esses animais não consigam manter uma reserva energética. "O alto conteúdo de ferro no sangue também é problemático na alimentação, porque pode alterar as funções de diversos tecidos, como também sobrecarregar os rins que fica responsável pela excreção", detalha.

Enquanto vários mamíferos podem sobreviver meses sem comer (desde que tomem água), os morcegos-vampiros não vivem três dias em jejum

Os morcegos-vampiros têm hábitos noturnos — Foto: Guilherme Garbino

Os morcegos-vampiros têm hábitos noturnos — Foto: Guilherme Garbino

Não à toa que a literatura já adiantava que os morcegos-vampiros sobreviviam pouquíssimos dias sem se alimentar. "Os morcegos-vampiros são muito sensíveis ao jejum, porque a falta de carboidrato na dieta não traz estímulo para a formação de células que secretam insulina. A insulina é um hormônio anabólico potente que é estimulado por altas concentrações de glicose na circulação. Então, quando a gente come muito carboidrato, isso gera um estímulo para secretar glicose - que armazena esse excesso de carboidrato consumido. Os morcegos-vampiros não fazem isso, portanto ficam sem reserva de energia", esclarece.

"Como estão sempre voando, e essa atividade impõe um gasto energético muito alto, precisam se alimentar constantemente", completa Mariella.

Os morcegos-vampiros vivem na berlinda: é uma luta para continuar vivo a cada noite, porque precisam se alimentar sempre. São animais noturnos e estão ativos durante esse período
— Mariella Freitas, especialista em morcegos

Mas se a alimentação exclusiva de sangue traz todos esses problemas, porque até hoje os morcegos-vampiros continuam se alimentando exclusivamente disso?

"Esse padrão metabólico favorece o voo, porque o morcego fica seco, puro músculo peitoral, e não tem nada de gordura. A aerodinâmica do corpo dele é perfeita para uma ótima locomoção. Morcegos-vampiros, além de voar bem para procurar presas, também, por conta da sanguivoria, conseguem andar e saltar. Todo esse comportamento é favorecido por esse padrão metabólico com a baixa secreção de insulina", explica.

Morcegos, mamíferos injustiçados

Morcego-vampiro-de-asas-brancas é a espécie mais rara — Foto: Roberto Novaes

Morcego-vampiro-de-asas-brancas é a espécie mais rara — Foto: Roberto Novaes

Além disso, enquanto outras espécies competem por sementes, frutas e insetos, os morcegos-vampiros apostam em um recurso alimentar único que só ele explora, então, não há competição por sangue. "O que ficou ainda mais fácil e abundante com a introdução do gado, que gerou uma explosão nas populações principalmente dos morcegos-vampiros-comum", diz.

Há ainda outra estratégia desses morcegos para driblar a susceptibilidade de jejum: compartilhando o alimento. "As três espécies de morcegos-vampiros compensam a pouca reserva energética de forma comportamental. Eles compartilham o alimento entre si através da regurgitação, em uma dinâmica complexa e impressionante", detalha Mariella.

"Existe uma unidade social composta geralmente de oito a 12 indivíduos. Toda noite o grupo sai para se alimentar e volta para o abrigo. A partir dai, os morcegos se juntam e avaliam quem conseguiu se alimentar naquela noite, observando a extensão do abdome", completa.

Morcego-vampiro-comum é o mais estudado pela pesquisadora Mariella Freitas — Foto: Vladimir José Rocha

Morcego-vampiro-comum é o mais estudado pela pesquisadora Mariella Freitas — Foto: Vladimir José Rocha

A pesquisadora conta que esses pequenos mamíferos são capazes de perceber quais estão com a barriga cheia de sangue (eles têm a capacidade de armazenar mais sangue que o próprio peso corporal). Dessa forma, quando o animal que não conseguiu encontrar uma presa encontra outro do mesmo grupo que está cheio de alimento, ele requisita o sangue lambendo o lábio do que se alimentou, e esse, divide o alimento através da regurgitação boca a boca. "Compartilhando entre si todos garantem alimento para resistir a mais uma noite".

Os morcegos-vampiros têm auxiliado estudos e pesquisas na medicina devido às substâncias anticoagulantes que apresentam na saliva

Os morcegos-vampiros desempenham um papel fundamental para a ciência — Foto: Vinícius C Cláudio

Os morcegos-vampiros desempenham um papel fundamental para a ciência — Foto: Vinícius C Cláudio

Nova pesquisa

Um artigo científico publicado no final de março deste ano, na revista Science, escrito por pesquisadores alemães e por cientistas brasileiros, no qual Mariella Freitas e outros colegas da Universidade Federal de Viçosa são coautores, revelou um pouco mais sobre a sanguivoria dos morcegos-vampiros avaliando o genoma desses bichos.

"Compararam o genoma dos morcegos-vampiros com outros 25 morcegos parecidos (neotropicais, da mesma família) e chegaram a conclusão de que 10 genes foram delatados, perdidos no processo evolutivo, o que possibilitaram a exploração da sanguivoria", explica Mariella.

  • Genes deletados:
  • Dois no pâncreas - que comprovam a baixa secreção da insulina; e um gene que está ausente nos músculos e fígado - que comprova que eles não armazenam glicogênio, a principal reserva de carboidrato;
  • Um no estômago - que faz com que eles consigam digerir proteínas com maior facilidade;
  • Alguns no intestino - que aumentam a excreção de ferro.

"A descoberta sobre a excreção de ferro é interessante: a ausência dos genes faz com que a absorção seja menor, o que facilita a excreção e faz com que esse ferro não fique nos tecidos onde poderia causar algum dano", explica a pesquisadora, que destaca ainda a ausência de um gene que confirma a habilidade social e o comportamento de compartilhar o alimento.

"É um gene que está relacionado com a disponibilização de hidroxicolesterol, uma molécula que se liga a canais específicos no cérebro e possibilita um maior número de conexões neurais. A ausência desse gene no cérebro dos morcegos faz com que haja uma maior disponibilidade dessa molécula - o que facilita os processos relacionados a comportamento, memória e aprendizagem; e explica essas conexões cerebrais que formam unidades sociais para o compartilhamento de alimento", completa.


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