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Belas, mas invisíveis

As belas e invisíveis borboletas— Foto: Foto: Luciano Lima

As belas e invisíveis borboletas — Foto: Foto: Luciano Lima

A diversidade da natureza não cansa de surpreender quem gosta de admirá-la. Essa semana a coluna "Histórias Naturais" traz as curiosidades de uma tribo de borboletas que faz uso de um recurso único para se proteger dos predadores.

Procure na internet sobre "animais mestres da camuflagem". Você irá encontrar imagens de bichos como corujas, serpentes, anfíbios, lagartos, gafanhotos, aranhas e muitos outros que muitas vezes demandam atenção dos seus olhos para serem encontrados nas fotos e vídeos, mesmo você sabendo que tem um animal na imagem. Mas coloque esses animais fora do contexto visual dos seus ambientes naturais e quase sempre o "feitiço irá virar contra o feiticeiro", deixando o animal extremamente exposto.

Se no nosso mundo ir vestido de chinelo e bermuda em uma festa mais formal pode passar a impressão de desleixo, no mundo natural estar com a "roupa" errada no lugar errado pode atrair a atenção de predadores e facilmente custar a vida.

Um dos exemplos clássicos disso, largamente perpetuado em livros de biologia, é o caso de uma população de mariposas da Inglaterra que, por conta da revolução industrial, passou a ter uma maior frequência de indivíduos com coloração mais escura. A explicação para isso é que que as aves enxergavam mais facilmente e capturavam mariposas claras contra o fundo escuro de estruturas cobertas por fuligem.

Mas por que ser colorido para ser camuflado? Não ter nenhuma cor, e ser transparente, seria uma ótima forma de se camuflar em qualquer superfície ou meio. Seria não, é. Muitas espécies de animais são transparentes, a maioria delas aquáticas. As águas-vivas talvez sejam um dos exemplos mais conhecidos pelas pessoas, mas dentro d'água existem também anêmonas, moluscos, camarões e até mesmo várias espécies de peixes quase completamente transparentes.

Água-viva é exemplo mais comum de transparência — Foto: Patrícia Hanate/Acervo Pessoal

Água-viva é exemplo mais comum de transparência — Foto: Patrícia Hanate/Acervo Pessoal

Em terra, no entanto, ser transparente traz alguns desafios, e quando pensamos em camuflagem um dos principais deles é o fato que o reflexo da luz em superfícies transparentes pode arruinar imediatamente a camuflagem chamando atenção de predadores. Talvez por isso, ser transparente para evitar predadores é algo muito mais comum na água do que em terra. Ainda assim, um grupo de animais terrestres "inventou" a transparência varias vezes ao logo da sua história evolutiva, as borboletas e mariposas.

Estudos apontam que pelos menos 31 famílias distintas de borboletas e mariposas contam com espécies com as asas transparentes em algum grau. Ainda de acordo com diferentes pesquisas, em muitos casos ser transparente seria principalmente uma forma de camuflagem contra predadores.

Se você ficou curioso e quer ter a chance de observar alguma borboleta-transparente, borboleta-asa-de-vidro ou borboleta-fantasma - como também costumam ser chamadas - minha dica é: ficar de olho atento no solo e nos estratos mais baixos da mata quando você estiver caminhando por alguma área de floresta.

Foi assim que na da RPPN Estação Veracel, no Sul da Bahia eu encontrei essa "maravilindissima" borboleta *Haetera piera*. Além da Mata Atlântica, a espécie também pode ser encontrada na Amazônia, geralmente ocorrendo apenas em áreas de floresta mais preservadas. Mas mesmo em áreas de florestas mais próximas a grandes centros urbanos você pode encontrar borboletas com asas transparentes.

borboleta-de-vidro tem beleza que encanta — Foto: Carlos Alberto Coutinho/ TG

borboleta-de-vidro tem beleza que encanta — Foto: Carlos Alberto Coutinho/ TG

No Brasil, um dos países com maior riqueza de borboletas do planeta, com um pouco de atenção é possível encontrar diversas espécies de borboletas-asa-de-vidro na borda e no interior de áreas de mata até mesmo de parques urbanos. Até mesmo em parques dentro da cidade de São Paulo eu já muitas vezes observei borboletas da tribo Ithomiini. Parentes relativamente próximas da famosa borboleta-monarca, muitas espécies de Ithomiini possuem asas transparentes.

Meu amigo biólogo, Carlos Candia Gallardo, que no seu doutorado estudou as borboletas da tribo Ithomiini, me chamou atenção para um outro tipo de confusão visual, além da camuflagem, criada pelas asas transparentes. De acordo com ele, que capturou milhares de borboletas, mesmo enxergando as borboletas-asa-de-vidro a transparência parece afetar um pouco a percepção da posição exata do inseto, dificultando na hora de captura-lo.

Outra curiosidade interessante das borboletas da tribo Ithomiini é que mesmo se a camuflagem falhar elas têm um segundo sistema de defesa contra predadores. Os machos conseguem extrair substâncias específicas de algumas plantas que os deixam com um gosto muito ruim. Essas mesmas substâncias são utilizadas pelo macho para atrair fêmeas e durante o acasalamento são oferecidas como um inusitado presente de acasalamento.

Borboletas invisíveis são verdadeiras rainhas da camuflagem — Foto: Carlos Candia Gallardo

Borboletas invisíveis são verdadeiras rainhas da camuflagem — Foto: Carlos Candia Gallardo

Graça a camuflagem e o fato de serem uma comida pouco apetitosas, as borboletas-de-vidro não tem muito o que temer. Assim, diferente da maioria das borboletas, que possuem voo agitado, elas costumam ser muito mais tranquilas e permitem grande aproximação.

O nome da ordem a qual fazem parte borboletas e mariposas é Lepidoptera, que traduzindo do latim significa "asas com escamas". O nome é uma referência as microscópicas escamas que cobrem as asas das borboletas e, entre outras coisas, são responsáveis por criarem seus padrões de cores.

Estudos recentes demonstram que as borboletas que possuem asas transparente ou perderam completamente as escamas, ou as reduziram a estruturas parecidas com pelos, ou ainda possuem escamas transparentes que são mantidas eretas. Já para contornar o problema do reflexo em superfícies translúcidas, muitas espécies desenvolveram estruturas microscópicas sobre as asas cujo formato é capaz de refletir ou absorver os raios de luz de forma a reduzir o reflexo.

O ditado popular diz que a beleza está nos olhos de quem vê, mas a natureza é tão fantástica que faz até o invisível ser belo, mesmo querendo que ninguém o veja.


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