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Mulher com nanismo retoma estudos após trauma por preconceito: 'Falavam que lugar de deficiente era em casa'

Jucelaine Daniela Rosa, artesã e profissional de recursos humanos — Foto: Arquivo pessoal

Jucelaine Daniela Rosa, artesã e profissional de recursos humanos — Foto: Arquivo pessoal

Jucelaine Rosa abandonou a escola antes mesmo de concluir a 4ª série. Com nanismo diastrófico, caracterizado pela deficiência no crescimento e malformação das articulações, conta que sofreu com discriminação até de professoras e diretora, que diziam que ela não deveria estar ali. O preconceito provocou um trauma, que aos 45 anos vem superando com determinação: retomou os estudos, ampliou horizontes e ganhou uma carreira.

Ao aprender ler e escrever, Jucelaine deixou de fazer parte de uma triste estatística. Dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) mostram que em Campinas (SP), onde vive, há 15,3 mil moradores com mais de 16 anos considerados analfabetos absolutos.

A história de Jucelaine e também de Célia Maria, alagoana que retomou os estudos aos 60 anos de idade para buscar melhores oportunidades no mercado de trabalho, são inspiração nesta quinta-feira (8), quando é comemorado o Dia Mundial da Alfabetização.

Barreiras

Jucelaine deixou de frequentar a sala de aula aos 14 anos de idade. Os obstáculos, ela conta, eram diversos, isso desde os primeiros anos de estudo.

“Quando eu completei 7 anos, foi difícil pra minha mãe porque todas as escolas que ela ia falavam que lugar de deficiente era em casa e não na escola. Nunca tinha sido, até que a minha mãe conseguiu.”

Além de uma unidade na região do Parque Jambeiros, Jucelaine estudou em outras três escolas, e seja pela distância ou dificuldades de locomoção, sempre dependia de terceiros e de uma estrutura inexistente.

“Foi bem complicado, porque tinha muita barreira na escola e eu usava carrinho. Não tinha acessibilidade pra mim, não tinha rampa, o banheiro era alto e eu tinha que pedir ajuda para as meninas da minha sala. Aí eu parei de estudar”, recorda.

Volta aos estudos

Passados 20 anos, Jucelaine retomou os estudos por incentivo de uma psicóloga, familiares e amigas, algumas delas professoras.

“Eu falei muito pra ela [psicóloga] que tinha trauma, eu tenho trauma até hoje, quando fala em escola eu fico bastante balançada ainda", conta.

Jucelaine começou em 2021 o supletivo de forma remota e concluiu a primeira etapa em julho de 2022. Ela foi aluna do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) I, relativo ao período do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental, oferecido pela Fundação Municipal para Educação Comunitária (Fumec).

Jucelaine Rosa trabalha de forma remota em um espaço adaptado — Foto: Arquivo pessoal

Jucelaine Rosa trabalha de forma remota em um espaço adaptado — Foto: Arquivo pessoal

Neste segundo semestre, ela iniciou o EJA II, que contempla os anos finais da educação básica e os três do ensino médio. "A minha mãe não era muito a favor, mas agora ela está me apoiando bastante. Ela só tem até a quinta série e o meu pai tinha até a oitava série”.

Até 2008, Jucelaine trabalhava com bordados “ponto cruz”, quando veio a oportunidade de trabalhar registrada em uma empresa de RH, em Jaguariúna (SP). A empresa não possui espaço adaptado. “Eles optaram que eu trabalhasse em casa, eu recebo tudo por e-mail e faço o serviço pela internet”.

Para o futuro, Jucelaine espera continuar trabalhando em casa, onde possui móveis adaptados, com artesanato ou na área administrativa. "Eu acho importante [saber ler e escrever] porque você adquire conhecimento, pode ter uma oportunidade de trabalho e um estudo completo", completa.

'Tudo tem seu tempo e sua hora'

Célia Maria, ao centro, cercada por seus familiares — Foto: Arquivo pessoal

Célia Maria, ao centro, cercada por seus familiares — Foto: Arquivo pessoal

Alagoana, criada na roça, mesmo sendo filha de professora, Célia Maria não concluiu os estudos devido a rotina de trabalho intensa, e reconhece que faltava interesse da parte dela e dos irmãos, o cansaço acabava se tornando maior que a vontade de ir às aulas.

“Sempre fomos preguiçosos, porque meu pai nos levantava muito cedo para ir para a roça, e quando nós voltávamos, estávamos ‘só o pó da rabiola’, como diz o ditado. Ao invés de ir para escola, ficávamos debaixo dos pés de fruta, pé de pitomba, pé de manga. Chegava na escola já atrasada, e a professora nos fazia voltar", recorda.

Célia mudou-se para o estado de São Paulo há 40 anos, e hoje mora em Campinas (SP). Ela interrompeu os estudos na 3ª série, e diz que uma das motivações para voltar à sala de aula é poder melhorar a sua escrita.

“Foi porque a minha letra é muito horrível, minha letra ninguém entende, nem meus filhos. Aí eu fiquei com vergonha em todos os cantos que eu vou e tenho que escrever.”

Próxima de completar seus 60 anos, Célia tem sua mãe como principal inspiração. Além de professora, ela se formou aos 54 anos em enfermagem, o que para Célia é uma esperança de que com os estudos, ela poderá ter uma boa oportunidade de emprego.

“A formatura dela foi com 54 anos. Os idosos vão ter a oportunidade se tiver uma aprendizagem de alguma coisa, eu penso nisso. Então, já me preparei, né? Quando chegar esse momento de eu ter essa oportunidade eu vou estar mexendo no computador, e vou ter o meu diploma para falar que eu terminei meus estudos.”

Apoio da família

Além disso, o apoio da família tem sido fundamental para Célia seguir no Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), promovido também pela Fumec. Mãe de seis filhos e casada há 34 anos, Célia é incentivada pelos filhos e também incentiva seu esposo, hoje com 70 anos, mas que também não teve a oportunidade de concluir seus estudos na infância.

“Nossa eu tenho eu tenho aqui uma princesa minha que é minha filha mais velha a minha, todos estão felizes, mas ela ‘está no céu’, todos me incentivam. E o meu esposo, vai fazer 70 anos, e eu falo para ele, volta para escola. Ele me disse que quando era criança, ao invés dos estudos, o pai dele apresentou a enxada.”

Após três meses de aprendizado, Célia entende que agora é seu momento de poder aprender o que não teve oportunidade no passado, e reforça o quanto tem sido gratificante.

"Tudo tem seu tempo e sua hora, né? Chegou a hora agora. Eu gosto muito de ciência, português. Estou amando", completa.

Analfabetismo em Campinas

Diante do número de moradores analfabetos absolutos, segundo o TRE, a prefeitura de Campinas informou que há a meta de universalizar a alfabetização da população com 15 anos ou mais e reduzir em 70% a taxa de analfabetismo funcional até 2025.

Na rede pública de ensino, de acordo com a Secretaria de Educação, a Fumec atende toda a demanda manifesta, com oferta de 110 turmas de EJA distribuídas em diferentes regiões do município. "Nos últimos cinco anos, 3.239 jovens e adultos concluíram os estudos pela fundação", diz a pasta.

*Sob supervisão de Fernando Evans

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