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A porta e a janela - Prisma - R7 Conversa de Repórter

Essa semana eu me lembrei do Elias. A história dele foi uma das mais bonitas que já contei. Busquei na internet o vídeo da reportagem que gravamos há três anos, quando eu ainda era repórter da Record, em Bauru. Sem querer, acabei descobrindo que ele já não está mais entre nós.

Elias morreu em abril deste ano. Entrou para as estatísticas de mortes por Covid-19. Ainda bem que, em vida, ele fez parte de uma estatística muito mais animadora, positiva: a de pessoas que decidiram resgatar sonhos e voltaram a estudar depois dos 40 anos.

Nascido numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, Elias teve uma infância difícil. Em vez de livros, cadernos e sala de aula, ele precisou encarar a realidade da vida na roça. Não teve como estudar. Nem, tampouco, teve tempo de sonhar quando mais jovem.

Anos mais tarde, ao se mudar pra São Paulo, enfrentou a lavoura de cana-de-açúcar e de amendoim. Quando chegou a Bauru, trabalhou com gesso, mas sofreu um acidente que o impossibilitou de continuar na área. Foi aí que ele decidiu se inscrever num concurso público, mas a baixa escolaridade não o permitia concorrer a uma das vagas de gari na cidade.

Elias optou por não baixar a guarda. Foi predestinado. Voltou a estudar num desses programas para jovens e adultos. Só depois de concluir essa etapa, é que ele, finalmente, conseguiu prestar o concurso e passar. A partir daí, virou gari. Elias não imaginava, mas o futuro lhe reservava algo que, lá atrás, parecia impossível: terno, gravata e o título de Doutor.

Durante o dia, ele varria as ruas de Bauru. À noite, continuava na rotina de estudos. Até que conquistou o Ensino Médio e foi motivado a buscar o Ensino Superior. Homem de fé e dono de uma autoconfiança única, Elias passou no vestibular de Direito. Recebeu parte de uma bolsa de estudos, se dedicou e passou anos conciliando a vassoura com os livros. Formou-se. Prestou o exame da OAB. Passou. Virou advogado. Virou Doutor. De gari passou a ser o Dr. Elias.

Eu ficaria horas e mais horas papeando com ele. Gosto de ouvir histórias de superação. Acho que o jornalismo presta um serviço essencial quando se dispõe a contar passagens tão especiais de personagens anônimos, mas que alcançaram algum reconhecimento. Elias parecia, verdadeiramente, orgulhoso de tudo aquilo. O que nós propomos, no dia da reportagem, foi levá-lo até à escola que deu a ele toda essa base.

Enquanto fazíamos as imagens, Elias passeava pelos corredores com um olhar de saudade, esbanjando gratidão. Voltar ao tempo e lembrar das dificuldades fizeram bem a ele. Ver uma parte da história dele sendo contada, pra todo o interior paulista, o fez reviver etapas importantes da vida que ele lutou pra melhorar.

Depois que nos despedimos, nunca mais o vi. Não sei quantas causas defendeu. Quantas ganhou. Quantas perdeu. Só o que sei é que a vida do Elias foi vitoriosa. Não é preciso ter milhões na conta bancária pra se sentir realizado. O Elias não ficou rico. O valor dele não se media por cifrões. O valor dele era invisível aos olhos. Foi isso que ele deixou para os colegas, amigos, parentes e para as milhares de pessoas que mergulharam um pouco na trajetória dele por meio daqueles cinco minutos de reportagem que exibimos.

Alguns personagens marcam a gente. Elias partiu e, talvez, não tenha se dado conta da importância dele pra tantas pessoas. Inclusive, para este repórter que busca, diariamente, colecionar aprendizados com base naquilo que vejo, ouço e conheço. Elias saiu de cena. Não está mais nesse mundo. Mas deixou um legado resumido numa frase dita por ele: "A porta é Deus. Mas a sala de aula é a janela pro sucesso".

Assista à reportagem exibida no Balanço Geral, da Record TV Paulista de Bauru


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