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Minha mãe numa reportagem minha  - Prisma - R7 Conversa de Repórter

Maio de 2016: mês das mães e da maior mudança da minha vida, até então. Eu estava prestes a deixar minha casa, minha cidade e o SBT, emissora que me deu a primeira oportunidade como repórter de TV no interior de São Paulo. Estava indo embora de Araçatuba, onde nasci e cresci, pra começar o meu ciclo na Record, em Bauru.

Coincidência ou não, a última reportagem que fiz foi uma homenagem ao Dia das Mães. Mas, pela primeira vez, eu poderia escrever um texto carregado de sentimento. Decidimos, na reunião de pauta, que aquela matéria seria escrita em forma de crônica. Seria uma narrativa com trechos reflexivos, com detalhes, com emoção.

Pensamos em retratar cada fase de uma mãe. Fomos em busca de personagens que pudessem dar vida ao roteiro que se desenhava no papel. Uma mulher grávida, que pudesse falar sobre as expectativas de ser mãe; uma mamãe de recém-nascido, pra contar a experiência de lidar com um serzinho que não vem com manual de instrução; uma mãe de adolescente, pra falar sobre os desafios dessa etapa; e, por fim, uma mulher mais madura, com filhos criados, prontos pra voar.

Eu me lembro que a construção dessa reportagem foi a coisa mais gostosa do mundo. Fizemos em quatro, seis, oito mãos. Pensamos em cada detalhe, imagem, ângulo. Precisávamos dar vida a cada palavra que surgia no texto que, aos poucos, eu ia rascunhando.

Ouvir todas aquelas histórias aguçavam, ainda mais, os meus pensamentos. E, eu, particularmente, estava bastante emocionado. Além de ser minha última reportagem na TV, era uma homenagem que eu estava fazendo, especialmente, pra minha mãe. Pela primeira vez, eu pude colocar o meu coração num texto de televisão. Eu pude brincar com as palavras. Pude fazer trocadilhos. Pude me emocionar pra escrever.

Foi um trabalho feito em sintonia. Produção, reportagem, cinegrafista, edição de texto, chefia de jornalismo, todos estavam inspirados. Todos emprestaram alguma ideia para que o resultado final fosse o melhor possível.

Já estávamos quase voltando pra redação, quando tive uma ideia no caminho. Eu queria tornar aquela homenagem ainda mais significativa pra mim. Decidi ligar pra minha mãe, a dona Zizi, e pedi pra ela me encontrar numa praça, ali perto da emissora. Morávamos, praticamente, do lado da TV. Contei meio por cima o que eu pretendia fazer, mas a deixei um tanto curiosa.

Quando ela chegou, finalmente, eu disse que a colocaria na homenagem. Pela primeira vez, minha mãe participaria de uma reportagem minha. Eu estava com o coração tão amolecido, que mal conseguia pensar num texto. Só me lembro que o cinegrafista, Fernando Pessoa, a colocou sentada num dos bancos da praça e combinou comigo o movimento da passagem, que é a parte em que o repórter aparece na matéria.

Lembro e até hoje me emociono ao reviver aquelas minhas palavras. Lembro da minha voz trêmula, segurando o choro, ao me aproximar dela, abraçando-a e dizendo: "eu te amo". Escrevo, enquanto assisto ao vídeo, e não consigo evitar os olhos marejados. Aquela foi a reportagem mais linda que eu já fiz. A reportagem que mais fez sentido na minha vida pessoal e profissional.

Ao exibir a matéria, já no encerramento do jornal, o apresentador, Marcelo Casagrande, chorou ao dizer que se sentiu tocado pelo texto e ao se lembrar da mãe, que não mora na mesma cidade que ele. Ali, tive a certeza de que o trabalho havia valido muito a pena. Nós conseguimos chegar ao coração de quem assistiu à reportagem.

Assista à reportagem: é uma crônica, emocionante, sobre o Dia das Mães

O Dia das Mães se tornou ainda mais significativo pra mim. Após a reportagem, um outro detalhe marcou, pra sempre, essa data: poucos dias depois, no domingo das mães, estava a minha, me ajudando a arrumar as malas. Quis o destino que eu saísse de casa pra tentar a vida fora, exatamente, nessa data. Deus foi tão bom, que eu pude almoçar com ela naquele dia e, mais tarde, fomos todos pra Bauru conhecer minha nova casa.

Lá se vão seis anos longe dela, fisicamente. Nem todos os Dias das Mães consegui estar em Araçatuba. Meu trabalho, os plantões, a vida que escolhi me tiraram esse privilégio. Minha mãe sempre entendeu. Eu que, às vezes, não entendo como é custoso realizar um sonho. De Bauru vim pra São Paulo. Agora, são 500 km de distância.

No último domingo, pude passar o Dia das Mães com ela. Depois de muito tempo, consegui uma folga que me permitiu voltar pra capital, apenas, na segunda-feira. Assim como eu, outros tantos colegas jornalistas vivem esse dilema diário. Esse desejo de desbravar o mundo, mas com aquela vontadezinha de não cortar o cordão umbilical totalmente. Tem dia que a saudade aperta. Tem dia que a gente só finge que está tudo bem. Tem dia que o colo da dona Zizi é o único lugar que me caberia no mundo. 

Mas quando lembro que o meu sonho é o dela também, a saudade vira combustível. Lembrar da minha mãe me faz ter orgulho de tudo o que eu já vivi. Me faz, sem saber do futuro, dar boas-vindas ao que, certamente, Deus, meu esforço e as orações dela me farão viver.


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