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Peça clássica de Eugene O'Neill ganha versão estrelada por Ana Lucia Torre

Em 1941, o americano Eugene O'Neill, um dos maiores dramaturgos do teatro mundial, pôs o ponto final naquela que se tornaria sua peça mais dolorida. Tão sofrida, que ele condicionou sua divulgação apenas 25 anos após sua morte. Mas, ciente da força daqueles diálogos escritos com tanta dor e compaixão, a viúva Carlotta não cumpriu a promessa e Longa Jornada Noite Adentro estreou em Estocolmo, na Suécia, em 1956, três anos depois do falecimento de O'Neill.

"Foi um sucesso arrebatador também na Broadway, que a recebeu logo em seguida, e o texto se tornou em pouco tempo um marco do teatro mundial", observa Sergio Módena, diretor que assina uma poderosa montagem de Longa Jornada Noite Adentro que estreia nesta sexta, 24, no Tucarena. "Com essa peça, O'Neill estabeleceu a base do trágico no teatro realista americano."

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De fato, a história do clã Tyrone traz elementos caros ao dramaturgo como vícios, doenças e sentimentos acusatórios, exatamente o que viveu em família e que não pretendia ver encenada enquanto estivesse vivo. Longa Jornada é uma radiografia de apenas um dia na rotina dos Tyrone, que estão em uma casa de veraneio, em 1912. A ação começa às 8h30 da manhã, logo após o café, quando o casal Mary (Ana Lucia Torre) e James (Luciano Chirolli) entra em cena, conversando sobre frivolidades, enquanto se ouvem as gargalhadas dos filhos, ainda à mesa.

A aparente tranquilidade encobre, na verdade, uma relação que está prestes a explodir: viciada em morfina, Mary mantém em constante tensão a convivência com o marido, um ator famoso, mas extremamente sovina, e os filhos Jamie (Gustavo Wabner), rapaz frustrado que sente inveja do irmão caçula, Edward (Bruno Sigrist), cuja ambição de se tornar escritor pode ser abreviada pela tuberculose. Detalhe: pai e filhos afundam a tristeza no álcool. Naquele dia, todos entrarão em um labirinto de acusações mútuas, rancores e um lancinante acerto de contas que só vai terminar à meia-noite. Em meio a essa situação, a criada da casa, Cathleen (Mariana Rosa), busca manter um pingo de sanidade naquela casa, mas sem sucesso.

"A doença de Mary desarticula aquela família, na qual todos lutam por compreender a própria vida", observa Módena, que passou por momentos semelhantes entre seus parentes, o que apurou sua sensibilidade para conduzir a direção. "Com essa peça, O'Neill buscou perdoar sua família e a si mesmo." Segundo ele, o realismo do escritor é marcado por fortes signos, metáforas e simbologias. "É o que podemos chamar de realismo poético."

Na peça, é notável a identificação do dramaturgo com o personagem Edward, cujo nascimento sofreu uma negligência médica que, por sua vez, provocou o uso de morfina pela mãe. "Ela tenta esconder o vício, mas suas mãos, que vão ficando tortas, acabam denunciando", conta o diretor que, com isso, consegue uma marcante interpretação de Ana Lucia Torre.

A atriz, de fato, construiu meticulosamente os gestos de uma mulher que sucumbe lentamente. Desde o infantilismo de Mary até seus silêncios de mágoa e semi fúria, inevitáveis aos dependentes de morfina, Ana Lucia exibe um conjunto de expressões faciais que, junto da atitude corporal e das inflexões de voz, revelam um progressivo estado de decadência mental. "Ela tenta enganar os outros e a si mesma, mas não consegue. E, em uma situação como essa, é impossível o resto da família também não adoecer", comenta a atriz.

"É um processo doloroso o vivido por essas pessoas", observa Luciano Chirolli, que também evocou lembranças de problemas com parentes para a composição de seu personagem. "A preparação foi algo tão intenso que eu só conseguia me desvencilhar das angústias de Edward duas horas após o fim do ensaio", completa Sigrist. De fato, a direção de Sergio Módena pretende quebrar o realismo e construir, na arena do teatro, um espaço metafórico onde acontece o embate familiar. "Os personagens se acorrentam em um círculo vicioso. Se punem e são punidos, julgam e são julgados, perdoam e são perdoados, tudo com o intuito de expurgar os próprios ressentimentos e as marcas deixadas pelo outro."

A montagem atual já figura na galeria de outras produções da peça, que conta com uma protagonizada por Cacilda Becker (1958) e outra por sua irmã, Cleyde Yáconis (2002).

PRESTE ATENÇÃO

O olhar direto

Em cena, os atores se olham diretamente, o que torna cada cena ainda mais dramática.

Os cabelos de Mary

No texto original, Eugene O'Neill observa que Mary alisa o cabelo nos momentos em que sua sanidade está frágil, o que Ana Lucia Torre faz com perfeição.

Encenação na arena

Com espectadores em todos os lados, os atores encenam naturalmente, mesmo que deem as costas para uma parte do público. A proposta é de que cada espectador se sinta vigiando por uma janela.

Trilha sonora intimista

Criada por Marco França, a trilha sonora pontua alguns momentos com delicadeza, colaborando com a emoção.

Figurinos atemporais

Embora a trama se passe em 1912, os figurinos de Fábio Namatame não seguem rigidamente a moda da época, com atualizações que não destoam.

As mãos

Ana Lucia transmite a decadência de Mary pelas mãos.


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