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PIB em queda no 2º trimestre: entenda os motivos e veja 10 riscos que podem frear retomada

Mulher observa cartazes com preços em açougue em São Paulo, em imagem de julho. — Foto: LUCIANO CLAUDINO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

Mulher observa cartazes com preços em açougue em São Paulo, em imagem de julho. — Foto: LUCIANO CLAUDINO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

A recuperação da economia brasileira perdeu fôlego no 2º trimestre, evidenciado que ainda há uma série de obstáculos para a retomada e para a melhora das expectativas. Dados divulgados nesta quarta-feira (1º) pelo IBGE mostraram que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,1% no 2º trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano.

O fraco crescimento no período de abril a junho ocorre após a surpresa positiva do 1º trimestre, refletindo quebras de safras na agricultura, falta de insumos em cadeias da indústria e uma normalização ainda incompleta de diversos setores, sobretudo o de serviços – o mais impactado pela pandemia de coronavírus.

Com o avanço da vacinação e fim das restrições sanitárias na maior parte do país, a expectativa é que o PIB do terceiro e quarto trimestre mantenha a trajetória de recuperação. Mas em em meio a um cenário de inflação nas alturas, de juros subindo, de escalada da tensão política, de preocupações com o agravamento da crise hídrica e de antecipação da disputa eleitoral, os analistas passaram a revisar para baixo as previsões econômicas.

Economistas ouvidos pelo G1 alertam que tem aumentado o nível de incerteza em relação à economia. Embora permaneça a expectativa de um crescimento do PIB até mesmo acima de 5% em 2021, boa parte dos analistas já vê para 2022 um crescimento mais próximo de 1,5% do que de 2%.

São ao menos 10 fatores de risco podem frear a economia:

  1. Inflação persistente
  2. Juros em alta e crédito mais caro
  3. Crise institucional e tensão política
  4. Desarranjo nas contas públicas
  5. Dúvidas sobre agenda de reformas
  6. Crise hídrica
  7. Desemprego elevado e queda da renda
  8. Recuperação desigual dos setores
  9. Cenário global menos favorável
  10. Esgotamento do impulso do desliga e liga da economia

1 - Inflação persistente

A inflação no acumulado em 12 meses já ultrapassou 9%, e está cada vez mais acima do teto da meta estabelecida pelo governo para a inflação deste ano, que é de 5,25%. Entre os grandes vilões do ano, estão a disparada nos preços da gasolina e da energia elétrica.

Por ora, a expectativa do mercado para a inflação de 2021 é de 7,27%, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central. Para 2022, a projeção está em 3,95%, mas já se posiciona em patamar acima da meta central para o ano que vem, que é de 3,5%.

"O maior risco, que concentra outros riscos é a taxa de inflação. A grande preocupação é a expectativa para o IPCA 2022 descolar completamente do regime de metas e se perder completamente a rédea da inflação. Isso obrigaria o Copom a aumentar mais os juros, e isso num ano de eleições, afirma o economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados.

IPCA-15: prévia da inflação oficial acumulada em 12 meses, segundo o IBGE — Foto: Economia G1

IPCA-15: prévia da inflação oficial acumulada em 12 meses, segundo o IBGE — Foto: Economia G1

2 - Juros em alta e crédito mais caro

A taxa básica de juros (Selic), que no início do ano ainda estava na mínima histórica de 2% ao ano, já sofreu 4 elevações e está atualmente em 5,25% ao ano. Para os próximos meses são esperadas novas altas e parte do mercado já projeta uma taxa mais próxima de 8% na virada do ano.

Juros mais altos encarecem o crédito e prejudicam também a tomada de recursos para o consumo das famílias e investimento das empresas.

"Com os juros reais subindo e a política monetária tendo que ser mais restritiva, há um risco da economia crescer menos, principalmente aqueles segmentos que estavam se beneficiando e poderiam dar uma contribuição mais positiva para o PIB como o de construção civil", afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A evolução da taxa Selic
Desde 2017, em % ao ano
Fonte: Banco Central

3 - Crise institucional e tensão política

A escalada da tensão política, com conflito entre os poderes e reiteradas ameaças do presidente Jair Bolsonaro às instituições e ao sistema eleitoral também têm elevado a percepção de risco dos investidores e as incertezas em relação à economia brasileira.

Nas últimas semanas, o dólar voltou a atingir R$ 5,40 e a Bolsa zerou os ganhos no ano, em meio à ruídos políticos e perda de credibilidade da agenda liberal prometida pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes.

As crises criadas por Bolsonaro elevam a incerteza, o que impede a queda do dólar, faz subir a curva de juros de longo prazo e afeta também a confiança de empresários e investidores.

"Economia não anda sozinha, sem a política. Os investidores olham para frente e não conseguem ver uma saída muito clara. Isso para o mercado e para a economia é a pior coisa. Como se toma uma decisão de investimento de 20, 30 anos, se não se sabe como o cenário político nacional vai estar daqui 2 anos", diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, citando as ameaças do presidente à ordem democrática.

Bolsonaro já é alvo de quatro inquéritos no STF e um no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Variação do dólar em 2021 — Foto: Economia G1

Variação do dólar em 2021 — Foto: Economia G1

4 - Desarranjo nas contas públicas

Medidas orçamentárias consideradas populistas e eleitoreiras também pioram a percepção de investidores sobre a sustentabilidade das contas públicas.

Com a popularidade mais baixa, o governo Bolsonaro enviou ao Congresso uma proposta para criar o programa social Auxílio Brasil, em substituição ao Bolsa Família. O presidente prometeu um aumento de, no mínimo, 50% no valor médio do benefício, mas ainda não se sabe de onde virá o recurso para bancar o programa.

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Numa tentativa de abrir espaço no Orçamento, o Executivo também enviou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para parcelar o pagamento dos precatórios a partir de 2022, num movimento que tem sido interpretado como uma tentativa de flexibilização do teto de gastos (regra que não permite o crescimento das despesas acima da inflação do ano anterior).

"É, digamos, um calote fiscal elegante", critica Oliveira.

As contas do setor público estão no vermelho desde 2014. Ou seja, há 8 anos o Brasil tem gastado mais do que arrecada com impostos, o que gera o chamado déficit primário e amplia o endividamento.

Contas do setor público estão no vermelho desde 2014 — Foto: Economia G1

Contas do setor público estão no vermelho desde 2014 — Foto: Economia G1

A própria inflação mais elevada também coloca mais pressão fiscal, uma vez que diversas despesas obrigatórias, como aposentadorias, seguro-desemprego e abono salarial, são corrigidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que tem subido mais forte que IPCA, que é a referência para o valor do teto de gastos.

"Cada 1 ponto percentual do INPC acima da projeção oficial dá mais ou menos uns R$ 8 bilhões a mais de gastos. Não há espaço fiscal e as demandas são infinitas", afirma Matos.

5 - Dúvidas sobre agenda de reformas

Cresce também o ceticismo sobre o andamento no Congresso Nacional de propostas como as reformas tributária e administrativa. Os analistas cotam o desconforto dos agentes econômicos com o projeto de reforma do imposto de renda, que por falta de acordo não tem mais previsão de votação na Câmara dos Deputados.

"Isso vai minando a ideia de que há uma política econômica consistente e comprometida com a modernização da economia. Na verdade, o mercado está tirando a aposta no governo", diz Oliveira.

A avaliação é que, se não foram votadas até o final do ano, não será em ano de eleições que projetos de reformas estruturantes serão colocadas em votação no Congresso, ainda mais diante de um cenário de crise institucional e de conflito aberto entre os poderes.

"Já achávamos que o ano de eleição será muito tenso e turbulento, mas o risco já está contaminando 2021. O calendário eleitoral já se antecipou", destaca Matos.

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6 - Crise hídrica

O governo segue afastando a necessidade de racionamento de energia e Guedes disse que "não adianta ficar chorando". Mas o agravamento da crise hídrica preocupa, pois tende a ter impactos não só na inflação, mas também no PIB, podendo frear o crescimento industrial e agropecuário, intensivos em energia e água.

O preço da energia elétrica já subiu quase três vezes mais que a inflação ao longo dos primeiros 8 meses de 2021, refletindo em aumento disseminado nos preços de diversos produtos e serviços.

Na agricultura, a crise hídrica já afeta a produção de milho e cana-de-açúcar por exemplo. Diante da quebra de algumas safras, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) cortou de 2,6% para 1,7% a expectativa de crescimento PIB da agropecuária em 2021.

Os impactos da crise hídrica devem ficar mais visíveis no 4º trimestre. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já alertou que, a partir de outubro, a capacidade atual do país de geração de energia elétrica será insuficiente para atender à demanda.

"Temos a possibilidade de um resultado do PIB bem ruim no final do ano, com um 4º trimestre afetado por taxas de juros mais altas e pela crise hídrica", afirma Vale, que estima um crescimento de apenas 4,7% para a economia, abaixo da média do mercado, atualmente em 5,22%.

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7 - Desemprego elevado e queda da renda

A recuperação do mercado de trabalho segue fraca. Ainda são mais de 14 milhões de desempregados no país, o que limita a confiança e o consumo das famílias – principal motor do PIB nos últimos anos.

Os dados do IBGE também mostram que o rendimento médio do trabalhador no 2º trimestre ainda estava 6,6% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. Já a massa de rendimentos dos trabalhadores, que é a base do consumo das famílias, caiu 1,7%.

"Ainda tem muita gente fora do mercado de trabalho e o emprego, principalmente dos informais, continua dependendo de uma recuperação do setor de serviços. O auxílio emergencial voltou em abril, mas é mais restrito, o que acaba limitando o consumo das famílias", afirma Silvia Matos.

Apesar de recuo, país fechou o primeiro semestre do ano com 14,4 milhões de desempregados — Foto: Economia/G1

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A disparada da inflação também tem corroído o poder de compra do brasileiro, principalmente dos mais pobres, que passaram a ter mais dificuldades para comprar alimentos. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a cesta básica já custa mais que a metade do valor do salário mínimo.

"A classe de renda mais baixa teve uma piora significativa de renda real por conta da inflação, além do desemprego em si. Então, temos um consumo desbalanceado e uma recuperação bastante desigual", destaca Vale.

Cesta básica já consome mais da metade do salário mínimo do brasileiro

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8 - Recuperação desigual dos setores

Embora o PIB tenha retomado já no 1º trimestre o patamar pré-pandemia, a recuperação é desigual, com vários setores ainda longe da normalização, sobretudo os ligados a atividades de lazer ou de caráter mais presencial. Os serviços prestados às famílias, por exemplo, ainda estavam 22% abaixo do patamar pré-pandemia no final de junho.

Mas não é só o setor de serviços que ainda segue afetado pelos impactos e mudanças de hábitos de consumo provocados pela Covid-19.

Na indústria, a maior parte das atividades industriais ainda não eliminou as perdas e o setor tem sido impactado pela a dificuldade de obtenção de matérias-primas e pelo aumento dos custos de produção. Nas fábricas do segmento têxtil e automotivo, o nível de produção fechou o 1º semestre 15% abaixo do volume de fevereiro do ano passado.

No comércio, as atividades que ainda não retomaram a performance de antes da chegada da Covid são as ligadas a vendas de veículos, combustíveis, vestuário, material de escritório e livros e papelaria.

"Não se trata só de voltar à normalidade, mas de ter perspectiva de retomada de todos os segmentos, não só aqueles que estão retardatários nessa maratona da pandemia", afirma Matos.

9 - Cenário global menos favorável

Na cena externa, o cenário de fim de programas emergenciais de estímulos e sinais de desaceleração da economia chinesae de uma inflação mais alta nos Estados Unidos têm contido também o otimismo dos agentes econômicos ao redor do globo.

Permanecem também as preocupações com a disseminação da variante delta do coronavírus e problemas de gargalos na oferta, como elevação de custos de matérias-primas e falta de insumos em diversas cadeiras produtivas como a do setor automobilístico – um dos mais afetados pela crise na oferta de semicondutores, inclusive no Brasil.

"Esses fatores tendem a tornar o crescimento global mais volátil no curto prazo e terão o efeito de moderar as projeções de mercado para o crescimento das principais economias", avalia a equipe da LCA Consultores em relatório semanal, destacando que as projeções de mercado para o crescimento do PIB dos EUA em 2021 se deslocaram de 7% para taxas mais perto de 6%.

Sondagem da FGV mostrou que 46,2% dos agentes econômicos ainda consideram grave o problema de desabastecimento de insumos e/ou matérias primas e que predomina a percepção de que o ciclo de alta das commodities não será tão duradouro, devendo durar apenas por mais um ano.

Evolução do PIB do Brasil e projeções — Foto: Economia G1

Evolução do PIB do Brasil e projeções — Foto: Economia G1

10 - Esgotamento do impulso do desliga e liga da economia

As recentes revisões para baixo nas projeções para o PIB, sobretudo o de 2020, têm levado em conta também a percepção de esgotamento até o final do ano do impulso advindo da reabertura do setor de serviços – o mais afetado pela pandemia e que possui peso de mais de 70% no PIB.

"Pelo lado da pandemia, apesar dos desafios, a gente até vê luz no fim do túnel. A gente vai ver a normalização do setor de serviços como se viu em outros países. O PIB tende a ficar positivo, mas é simplesmente em razão do liga e desliga da economia. E a recuperação agora vem com mais freios e novas nuvens negras no horizonte", afirma Matos.

Os economistas lembram que o crescimento ao redor de 5% esperado para 2021 parece expressivo, mas é muito mais um efeito estatístico após o tombo do PIB em 2020.

"Como a economia brasileira caiu 4,1% em 2020, estaremos praticamente recuperando o que se perdeu no ano anterior. É como se na soma dos 2 anos estivéssemos pouco acima de zero. Como se a economia tivesse ficado estável em 2 anos. Na comparação mundial, o Brasil tem um resultado pior no ano passado e neste ano", afirma Vale, destacando que o PIB global caiu 3,3% em 2020 e tem projeção de alta ao redor de 6% em 2021.

A avaliação geral para 2022 é de um cenário de volta ao padrão medíocre de crescimento que tem sido observado desde a saída da recessão em 2016.

"Essa é uma recuperação-mola. A mola foi pressionada e quando você tira a mão ela volta, mas não com impulso sustentado. O potencial de crescimento para 2022 poderia ser maior se não tivesse tantas complicações para 2022", diz Oliveira.

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