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Mostra de SP: símbolo de resistência da cultura enfrenta o "vício" do streaming

Dez anos depois da morte de seu criador, Leon Cakoff, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega à 45ª edição, entre os dias 21 de outubro e 3 de novembro, como grande símbolo de resistência cultural no País.

No ano passado, por causa da pandemia, a Mostra foi realizada exclusivamente online. Já neste ano, haverá sessões virtuais e também presenciais em 15 espaços da cidade, reunindo 264 títulos de mais de 50 países.

Entre os destaques, estão filmes como ‘Ziraldo, Era uma Vez um Menino’, ‘France’, ‘Ao Cair do Sol’, ‘Marx Pode Esperar’, ‘Titane’, ‘Annette’, entre outros. Outras atrações são a exibição ao ar livre de ‘Summer of Soul’, no Vale do Anhangabaú; a homenagem póstuma ao diretor português Paulo Rocha e o Prêmio Leon Cakoff à diretora brasileira Helena Ignez.

Ao longo de 45 anos, o evento já tradicional no calendário de São Paulo sobreviveu à ditadura, a crises econômicas, a perdas de patrocínios, à morte de seu fundador, à pandemia. Esse traço de resiliência tão marcante em sua história é um legado deixado pelo próprio Cakoff, que ganhou continuidade no trabalho de Renata Almeida, sua mulher, parceira de Mostra e com quem ele teve dois de seus quatro filhos.

A teimosia de Leon Cakoff

Leon Cakoff era movido pela ‘teimosia’, lembra Renata. E trabalhou com ela na realização da 35ª edição até os últimos dias de sua vida, do hospital onde estava internado. O jornalista e crítico morreu no dia 14 de outubro de 2011, após enfrentar uma batalha contra um câncer de pele. “A Mostra herdou um pouco dessa teimosia”, constata Renata, em entrevista à CNN. Após a partida de Cakoff, Renata teve de assumir sozinha a direção do evento, com o qual já estava envolvida havia 22 anos.

Para ela, dar continuidade à Mostra naquele momento foi uma forma de querer que a vida continuasse. “Era como se eu já estivesse perdendo tanto que não ia perder também o trabalho. Então, era até uma questão de sobrevivência: eu já estava perdendo meu marido, meus filhos estavam perdendo o pai. Não ia perder a Mostra, que é o que eu faço”, conta. “Com o distanciamento, hoje vejo que era quase um apego à vida esse esforço todo de fazer o evento. Trabalhei tanto que era um jeito de fugir do luto, mas também de trabalhar o luto.”

Mostra de SP: símbolo de resistência da cultura enfrenta o
Leon Cakoff, idealizador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, durante a Mostra de 2007: coragem para enfrentar a ditadura, crises econômicas e trazer as novidades do cinema mundial ao Brasil / THIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

Renata aponta outros aspectos que podem explicar a continuidade da Mostra depois de tantos anos, e de maneira ininterrupta. Entre eles, a forma calorosa como a cidade recebe essa programação de filmes, a ponto de o público criar memórias afetivas. Há histórias de casais que se conheceram na fila para a sala de cinema, de senhoras que consideram o período da Mostra um dos momentos mais felizes de seu ano e também de espectadores que conheceram diretores antes da fama, como um tal de Quentin Tarantino, que participou da 16ª edição como um estreante que apresentava seu filme ‘Cães de Aluguel’.

Outro trunfo são os patrocinadores fiéis, a quem Renata sempre garante a realização de uma próxima edição do evento mesmo sem ter algo concreto para apresentar. “Você tem sua palavra, que tem que ser verdadeira, porque senão no outro ano você não vai conseguir. E essa confiança dos parceiros é o que faz a Mostra existir”, afirma Renata.

“É também algo feito com sentimento, e talvez isso esteja errado, como este ano em que a gente está voltando para as salas de cinema. Se fosse uma gestão mais fria, falaria: este ano é melhor só voltar online, porque o orçamento não voltou a ser o que era quando a Mostra era presencial.”

O que faz com que esta edição seja uma das mais difíceis da história da Mostra, segundo a diretora do evento. Mais até do que o ano passado, quando foi preciso adaptá-la à versão online por causa da pandemia. “O que está mais difícil este ano é voltar para o presencial, sem voltar a ter orçamento que tinha antes. A gente tomou essa decisão antes de fechar o orçamento.”

Além do streaming

Segundo Flavia Guerra, documentarista e jornalista especializada em cinema, a Mostra é um símbolo de resistência desde o início, quando Cakoff burlava a censura, em plena ditadura, e trazia às escondidas filmes inéditos vindos da China, da extinta União Soviética, de Cuba. A 1ª edição trazia o prêmio concedido por voto popular, o que fez um artigo do ‘Jornal do Brasil’ destacar na época que “a Mostra é o único lugar onde se pode votar no país”. “Ela já nasceu como uma resistência cultural e acho que isso imprime no caráter. E continua sendo assim, é sua essência”, diz.

Flavia chama atenção para a programação selecionada a cada edição, lançando um olhar atento ao que está acontecendo nos maiores festivais do mundo. “A Mostra traz um misto do que os grandes festivais propõem com uma curadoria própria, que olha para esses filmes, que seleciona, que pensa também no público brasileiro. Sempre propõe uma programação criativa, mesmo em crise.”

Isso leva a outro ponto importante sobre a Mostra e sua relevância após tantas décadas: o trabalho de curadoria que garimpa filmes estrangeiros que, muitas vezes, não chegariam ou demorariam para chegar ao Brasil. Títulos que não estariam disponíveis nem mesmo em grandes plataformas de streaming.

Segundo Flavia Guerra, o papel da Mostra em tempos de streaming é justamente fugir do algoritmo. “O algoritmo deixa a gente também um pouco refém da tal audiência, do que vende mais, ou filtra, por uma questão do que você já assistiu. A Mostra, claro, vai ter filmes que dialogam com o que você já viu no evento, mas muitos filmes que estão ali não vão para o streaming massificado.”

Em sua 45ª edição e dez anos após a morte de seu fundador, Leon Cakoff, Mostra começa dia 21 de outubro, com sessões online e presenciais
Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: continuar organizando o evento foi uma forma de enfrentar o luto pela perda de Cakoff, seu marido e pai de seus dois filhos / Mario Miranda Filho/Agência Foto

Renata Almeida faz uma comparação entre o cenário em que o evento surgiu e a realidade de hoje. “Quando a Mostra começou, a gente vivia num deserto: na ditadura, a informação não chegava, não havia nem DVD, nem videocassete. Hoje, a gente não vive num deserto, mas num oceano. É tanta informação nas plataformas. Os jovens conseguem achar tudo”, avalia ela.

“Sempre pensei: uma hora, vai acabar a importância da Mostra, as pessoas não vão mais querer ir. Mas esse oceano deixa a gente perdida também, porque tudo tem o mesmo peso. Se a gente não tem a confiança na fonte, tudo pode se tornar verdade, a mentira pode se tornar verdade. E vejo a Mostra como a amiga que fala: veja isso, eu vi, é bacana, talvez você possa gostar. Tem esse filme do Cazaquistão, por que você não experimenta? Essa sempre foi a proposta da Mostra e acho que continua sendo.”

O ator Alessandro Hernandez começou a ir à Mostra em 1998, atraído pela programação de filmes. Essa frequência se intensificou mais nos últimos dez anos. “A Mostra é um símbolo de resistência, principalmente pela possibilidade de nos conectar com filmes raros, com os quais a gente não se conectaria se não fosse ela. Esse símbolo está atrelado a isso, e também tem uma preocupação da curadoria de estar ligada com o cinema que dialoga muito com o tempo em que a gente vive.”

Para ele, a Mostra mais marcante foi a do ano passado, com o evento totalmente digital. “Em 2020, com a pandemia, a gente se viu fechado dentro de casa, sem possiblidade do acesso a atividades culturais. E a Mostra trouxe essa possibilidade de você acompanha-la dentro da sua casa. Isso é muito significativo, muito marcante. Um alento.”

Neste ano, Alessandro planeja continuar assistindo às sessões online, mas não descarta a possibilidade de ir presencialmente a alguma sala do circuito do evento caso se interesse por algum filme. “A expectativa é que, nos próximos anos, a gente possa estar junto nas salas de cinema e nos cafés após os filmes, conversando sobre as coisas que a gente está assistindo e trocando ideias.”


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