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Gilsons voltam aos palcos e conhecem público conquistado na pandemia

“Há de nascer / Um novo amanhã / Pra gente acordar / E dançar”, canta Francisco Gil, ou o “Fran”.

São poucos minutos depois das 21h. As luzes se acendem no teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros, na capital paulista, para revelar Fran no centro do palco, com João e José Gil lado a lado.

Após viver uma escalada súbita de popularidade durante a pandemia, mas passar o maior tempo desse sucesso presos às interações virtuais, os Gilsons – trio formado por um filho e dois netos de Gilberto Gil – aos poucos começam a conhecer os fãs que acumularam durante a pior fase da Covid-19.

Só no Spotify, o número total de streams nas músicas saltou de 2 milhões para 206 milhões entre o momento pré-pandemia e o atual.

Gilsons voltam aos palcos e conhecem público conquistado na pandemia
Gilsons se apresenta em noite esgotada no SESC Pinheiros, em São Paulo, no dia 7 de maio de 2022/ Léo Lopes

Os primeiros versos cantados no show são de “Pra Gente Acordar”, música que abre e também dá nome ao álbum de estreia do trio.

A música, que canta a esperança de um amanhã “sem que nada possa nos machucar”, não foi escrita exatamente para a pandemia. Mas a interpretação veio a calhar com o tempo e deu força à canção.

Em um camarim do SESC Pinheiros, poucos minutos antes de subirem ao palco, Fran e José conversaram com a CNN sobre a trajetória do Gilsons, o ciclo de lançamento do álbum “Pra Gente Acordar”, o reconhecimento que o projeto ganhou ao longo da pandemia e o atual momento da banda.

Dos verões na Bahia ao bar na Gávea

Mesmo que o Gilsons, como um projeto musical em si, só tenha surgido em 2018, as primeiras interações musicais entre os três começaram ainda na infância.

A foto que ilustrou o primeiro lançamento da banda, o EP “Várias Queixas”, de 2019, “resume bem aquela época”, disse José Gil, que é o filho caçula de “seu Gilberto”, como o chamam.

A capa mostra os três, ainda crianças, brincando entre si como se estivessem fazendo um show, no sítio/casa de campo da família Gil em Araras, bairro de Petrópolis, na serra fluminense.

Trio formado por filho e netos de Gilberto Gil fala à CNN sobre o novo álbum e a trajetória da banda, que viu suas músicas saltarem de 2 milhões para 206 milhões de streams nos últimos dois anos
Capa do EP “Várias Queixas”, lançado em 2019, mostra Francisco, José e João Gil juntos no sítio da família em Araras, na cidade de Petrópolis, na serra fluminense/ Gilsons/Reprodução

“A gente também tinha longos períodos de férias na época. Ia em novembro para Salvador e ficava até o final de fevereiro. E já muito se relacionando com a música, por causa do Carnaval. Vendo as baterias, os blocos afros, também os blocos de axé, o trio elétrico. Tudo aquilo aproximava a gente do mundo musical”, conta José.

“A gente tinha muitos instrumentos em casa. Então desde pequeno a gente brincava, sempre no imaginário da criança, aquela coisa de brincar de estar no palco, montar show, fazer show pra família”, acrescenta.

Algumas décadas depois, em 2014, os três enfim formaram a primeira banda juntos. Com outros amigos, surgiu o grupo “Sinara”. “Era uma coisa meio pop rock, com bastante vertente do reggae, uma coisinha de afoxé”, relembra Fran.

Quatro anos depois, José foi convidado pelo produtor cultural Luciano Strazzer a se apresentar em um bar na Gávea, na zona sul da capital carioca. Ele lembra que o show faria parte de uma série de performances no local que reuniam artistas.

“Teve Tom Veloso com Zé Ibarra, Dora Morelenbaum e Julia Mestre, uns encontros bem legais. E eu não tinha repertório para fazer um show sozinho, então falei: ‘Pô, vou chamar o Fran pra dividir’. Acabou que, nos ensaios, a gente acabou chamando o João”, disse José.

“Porque nós dois também não tínhamos repertório pra um show inteiro. [Risos] Foi chamando gente até formar uma hora e meia de show”, brincou Fran.

A apresentação no Dumont Arte Bar aconteceu em abril de 2018, com os três cantando e tocando violões. Ali já surgiu a versão de “Várias Queixas”, do Olodum, que se tornaria um dos maiores hits deles no futuro, além da autoral “Love Love” (vídeo abaixo).

“Desse show já surgiu o interesse da galera por “Várias Queixas”. A gente sentiu que a música poderia ter uma vida fora desse show”, contou José.

Ele explica que a produtora cultural Andrea Franco, que hoje é empresária da banda, deu a ideia de gravarem um primeiro EP e “botou pilha” assim que a apresentação acabou.

Aliás, mal tinha acabado o primeiro show, e o projeto já tinha nome. A ideia veio da mãe de Fran, a cantora Preta Gil.

“Foi uma turma da família no show. Aí o pessoal mandando vídeos no grupo da família e tal. Minha mãe já falou: ‘É Gilsons.’ [Risos] A gente saiu do palco já estava lá o abaixo-assinado da família”, relembrou Fran. “A gente achou estranho, mas no segundo show a gente já era Gilsons”, completou.

Enfim, em novembro de 2019, o EP “Várias Queixas” é lançado. Além de “Várias Queixas” e “Love Love”, que já tinham sido testadas e aprovadas desde o primeiro show, o lançamento ainda incluiu outras três autorais.

“Então, vai ter show / Quando tudo passar”

No início de 2020, a banda começou a ver uma expansão de seu sucesso, mas foi surpreendida, como todo o setor cultural, com a chegada da pandemia de Covid-19. Todos os shows já agendados tiveram de ser cancelados.

“Só que a gente se reformulou. Conseguimos encontrar um jeito de trabalhar”, explicou Fran. Segundo eles, a banda encontrou nas parcerias com outros artistas um modo de se “fortalecer”.

Enquanto a pandemia estava em seu pior momento, até meados de 2021, eles lançaram apenas músicas em colaboração com outros cantores e bandas da cena. Foram cinco singles ao todo.

Uma das primeiras parcerias foi com a cantora da banda Bala Desejo, Julia Mestre, que resultou na música “Índia”, lançada em outubro de 2020. No entanto, as produções do grupo com a compositora carioca vão muito além.

Presente na plateia do show no SESC Pinheiros, Julia foi citada algumas vezes pelos meninos no palco quando introduziam a música. Ela inclusive escreveu “Pra Gente Acordar” junto com Fran, ainda em 2019, e divide outras composições com João e José também.

O último “feat” lançado antes do álbum foi “Algum Ritmo”, com a banda curitibana Jovem Dionísio. Tanto a letra – que canta “Então, vai ter show / Quando tudo passar” – quanto a produção da música, refletem os impactos do distanciamento social forçado pela Covid-19.

“A gente gravou a música inteira de uma forma remota e filmou o clipe todo desse jeito também. A gente só foi conhecer eles [os integrantes da Jovem Dionísio] depois”, contou Fran.

Foi durante esse período de isolamento que a banda ganhou lugar cativo nas playlists da chamada “Nova MPB”. Antes da pandemia, o grupo registrava, no total, 2 milhões de streams no Spotify e 2,5 milhões de visualizações no YouTube. Esses números saltaram para 206 milhões e 67 milhões, respectivamente.

Segundo dados do Google Trends, o primeiro pico de interesse e buscas por “Gilsons” aconteceu na semana de 13 a 19 de setembro de 2020.

Foi nessa semana que o festival paulistano Coala Festival organizou uma edição virtual, na qual os Gilsons se apresentaram ao lado de “seu Gilberto”.

Eles voltaram a atingir índices de busca parecidos no início de março de 2022, quando foram realizados os primeiros shows presenciais da banda.

O álbum “Pra Gente Acordar” também nasceu do momento pandêmico. O primeiro disco dos Gilsons tomou forma ainda em 2021, quando o trio decidiu se isolar no sítio da família em Araras – o mesmo da capa do EP “Várias Queixas”, fotografada décadas antes.

“A gente achou que o jeito mais seguro de fazer esse processo seria a gente se reunir e se isolar. E foi um caminho excelente que a gente acabou sendo forçado a fazer pela pandemia”, explicou José.

Foram cerca de 10 dias na casa de campo, local onde a primeira música composta pelos três foi escrita – “Vem de Lá”. Fran explicou que o disco deu a eles uma nova oportunidade de reafirmar a identidade da banda.

Parte de uma família tão marcada na memória cultural brasileira, José e Fran disseram que o sobrenome nunca representou uma forma de pressão sobre o grupo.

“A gente sempre teve muita força de vontade para fazer o nosso som, que naturalmente bebe de fontes diversas. A gente teve o privilégio de ter por perto muitos músicos, artistas, compositores”, disse Fran, “e sempre houve um incentivo muito grande à individualidade.”

A escolha de não incluir os feats no álbum foi parte desse processo de reafirmação. “Tudo vem de nós três. O disco diz tudo sobre a gente.”

Entretenimento
Trio brasileiro de MPB formado em 2018, Gilsons é composto por José Gil, Francisco Gil e João Gil, respectivamente filho e netos de Gilberto Gil / Marina Zabenzi / Reprodução

Olhando nos olhos pela primeira vez

Lançado no dia 2 de fevereiro de 2022, “Pra Gente Acordar” marca a volta dos Gilsons aos palcos.

A turnê do álbum começou em março. Três apresentações esgotadas – duas no Cine Joia, em São Paulo, e outra no Circo Voador, no Rio. Eles têm datas marcadas pelo Brasil até, pelo menos, agosto.

Na primeira interação com o público no show do SESC Pinheiros, José falou sobre como era bom conhecer e ver de perto os rostos desses “amigos que conheceram a gente durante a pandemia”.

Na entrevista à CNN, ele contou que considera essa situação “surreal”. “É muito incrível olhar nos olhos desse pessoal que conheceu a gente pela internet”, disse.

Dos verões na Bahia ao bar na Gávea
Trio brasileiro de MPB formado em 2018, Gilsons é composto por José Gil, Francisco Gil e João Gil, respectivamente filho e netos de Gilberto Gil. / Marina Zabenzi / Reprodução

O show no SESC Pinheiros foi encerrado com uma sequência de homenagens às raízes da família Gil, e uma viagem rápida do Rio de Janeiro à Bahia. Os três fizeram diversas falas sobre a importância da Bahia, dos verões em família e dos blocos afro para a formação da identidade deles.

O trio carioca “não poderia se despedir sem antes tocar um samba”, como eles mesmos apontaram. “Eu e você sempre” e “Alguém me avisou”, dos cariocas Jorge Aragão e Dona Ivone Lara, fizeram a banda sambar em cima do palco.

Para encerrar, uma homenagem ao soteropolitano patriarca da família: “Palco”, do álbum “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)”, lançado por Gil em 1981.

Convidando a plateia a “afugentar o inferno pra outro lugar”, os Gilsons terminaram o encontro e partiram do palco – finalmente, com a sensação de ter conhecido de perto os amigos feitos durante a pandemia.


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