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Paraquedista que sobreviveu a pouso forçado de avião lembra princípio de incêndio e resgate: 'Tive sorte de sair ileso'

Acidente com aeronave de paraquedistas ocorreu em Boituva — Foto: Arquivo Pessoal

Acidente com aeronave de paraquedistas ocorreu em Boituva — Foto: Arquivo Pessoal

Um paraquedista que sobreviveu ao pouso de emergência do avião que provocou duas mortes em Boituva, no interior de São Paulo, descreveu ao g1 os momentos logo após o acidente.

Segundo o atleta Raphael Gonzales Alves, houve um princípio de incêndio após o impacto da aeronave no solo e os próprios atletas tentaram reanimar os colegas que estavam desacordados. Ao todo, 16 pessoas estavam no avião.

"Parte do avião começou a pegar fogo. Achamos o extintor e controlamos o princípio de incêndio. Nisso, começamos ajudar quem ficou ferido [...] A adrenalina foi tanta que eu estava ajudando as pessoas com o paraquedas nas costas, que é pesado. Parecia uma eternidade tudo aquilo, mas acho que demorou uns 10 minutos para as equipes de emergência chegarem", relata.

Vítimas foram identificados como André Luiz Warwar, de 53 anos, e Wilson José Romão Júnior, de 38 — Foto: Arquivo pessoal

Vítimas foram identificados como André Luiz Warwar, de 53 anos, e Wilson José Romão Júnior, de 38 — Foto: Arquivo pessoal

Dois paraquedistas morreram após o pouso forçado no início da tarde de quarta-feira (11) e outras dez pessoas ficaram feridas. Até esta sexta-feira (13), o piloto e pelo menos dois atletas seguiam hospitalizados.

Os passageiros que morreram foram identificados como André Luiz Warwar, de 53 anos, e Wilson José Romão Júnior, de 38. De acordo com Raphael, os dois acabaram ficando embaixo das outras pessoas depois do impacto no pouso.

André era funcionário da área de tecnologia da TV Globo e dirigia filmes. Já Wilson José Romão Júnior, conhecido como "Juninho Skydive", morava em Piracicaba (SP) e era instrutor de paraquedismo.

Avião cai em Boituva (SP) — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Avião cai em Boituva (SP) — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Ao g1, Raphael contou que conheceu André no dia do acidente e, em uma decolagem antes do pouso forçado, havia feito um salto coletivo com ele e mais duas pessoas, para aprimorar algumas técnicas.

"Ele parecia ser uma pessoa muito centrada. Seríamos os primeiros a saltar e pedi para ele pular cinco segundos depois de mim, para manter a distância de segurança. André respondeu que já tinha captado e que ia dar tudo certo", lembra o paraquedista.

O atleta também relatou que fez massagem cardíaca e manobras de reanimação em uma das vítimas até a chegada do resgate. Ele disse que, quando entrou no paraquedismo, sabia que era um esporte de alto risco, mas nunca imaginou que iria passar por uma situação como a de quarta-feira (11).

"Hoje eu vejo que tive muita sorte ao sair ileso, mas é muito triste perder amigos paraquedistas. Fiquei surpreso com a minha reação", relata.

Acidente em baixa altitude

Aeronave que fez pouso forçado com paraquedistas em Boituva apresentou problema a cerca de 270 metros de altitude — Foto: TV TEM/Reprodução

Aeronave que fez pouso forçado com paraquedistas em Boituva apresentou problema a cerca de 270 metros de altitude — Foto: TV TEM/Reprodução

De acordo com o paraquedista Raphael, a aeronave apresentou problemas a cerca de 900 pés (aproximadamente 275 metros) de altitude. Ele contou que estava se preparando para fazer um salto considerado baixo, a seis mil pés, mas o avião não chegou na altitude necessária.

"Meu grupo ia ser um dos primeiros a saltar porque o nosso objetivo era um salto de treinamento de navegação em pouso. Nós estávamos próximos à porta e seríamos os primeiros a sair. Iríamos saltar de seis mil pés e o restante do pessoal ia continuar subindo até 12 mil, mas acabou que ninguém chegou nessa altura", lembra o atleta.

  • FOTOS: avião ficou destruído após acidente com paraquedistas

Um vídeo publicado nas redes sociais mostra os atletas em um salto realizado antes da decolagem que terminou no pouso forçado(assista abaixo).

Paraquedista que morreu em pouso forçado de avião compartilhou vídeo de salto momentos antes de acidente

Paraquedista que morreu em pouso forçado de avião compartilhou vídeo de salto momentos antes de acidente

De acordo com a Associação de Paraquedistas de Boituva, a aeronave decolou com 16 pessoas do Centro Nacional de Paraquedismo (CNP), mas teve uma pane elétrica logo depois e o piloto precisou fazer um pouso de emergência na área rural da cidade.

"Ouvimos o alarme e o piloto disse que a situação era crítica. Podia ver ao lado as hélices parando e o piloto, com muita rapidez, achando um lugar para pousar. Nisso, ele já falou pra gente ficar em posição de emergência, pra amenizar o impacto durante a queda."

Marca deixada por aeronave em barranco foi analisada por equipes da perícia em Boituva — Foto: Jorge Talmon/TV TEM

Marca deixada por aeronave em barranco foi analisada por equipes da perícia em Boituva — Foto: Jorge Talmon/TV TEM

Ainda de acordo com Raphael, a aeronave tocou três vezes o solo antes de tombar e ficar com as rodas para cima. Ele contou que os atletas ficaram sabendo da situação de emergência, mas chegaram a pensar que conseguiriam pousar em segurança e até a comemorar antes da aeronave atingir um barranco.

"O segundo [toque da aeronave no chão] foi tranquilo, tanto que a gente chegou a comemorar, ficou aliviado. E no meio desse sentimento de alívio é que ocorreu essa infelicidade. O trem de pouso bateu no barranco, fazendo com que o avião capotasse e causou isso."

Na tarde de quinta-feira (12), o paraquedista prestou depoimento à Polícia Civil de Boituva, que abriu um inquérito para investigar o caso. Além de ouvir os sobreviventes, em especial o piloto do avião, o delegado explicou que precisa dos laudos periciais para esclarecer as causas do acidente.

Motor da aeronave que fez pouso forçado em Boituva foi retirado pelo Cenipa — Foto: Jorge Talmon/TV TEM

Motor da aeronave que fez pouso forçado em Boituva foi retirado pelo Cenipa — Foto: Jorge Talmon/TV TEM

A aeronave foi desmontada para perícia na quinta-feira e o motor do avião foi recolhido por equipes do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

Imagens feitas pela TV TEM mostram que um braço mecânico foi utilizado para retirar os destroços da área dos fios de alta tensão em segurança (veja abaixo).

Equipes retiram destroços de avião que fez pouso forçado com paraquedistas em Boituva

Equipes retiram destroços de avião que fez pouso forçado com paraquedistas em Boituva

Manutenção em dia

Conforme apurado pelo g1, o avião Cessna Aircraft 208, de matrícula PT-OQR, é o mesmo envolvido em um acidente que matou o paraquedista Alex Adelmann, de 33 anos, durante um salto em 2012.

  • CNP: avião que levava paraquedistas saiu de centro que tem 120 decolagens por dia

Na época, foi constatado que o atleta foi atingido na nuca pela asa da aeronave logo após saltar no Centro Nacional de Paraquedismo (CNP), segundo o Cenipa. O piloto foi indiciado pela Polícia Civil por imprudência.

Avião caiu em Boituva, no interior de SP — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Avião caiu em Boituva, no interior de SP — Foto: Polícia Militar/Divulgação

No entanto, apesar do histórico, o presidente da Associação de Paraquedistas de Boituva (APB), Marcello Costa, afirmou que a aeronave apresentava bom estado de conservação e estava autorizada a realizar o transporte dentro da unidade.

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) confirmou que o avião estava com Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA) em dia, ou seja, apta para realizar voos, de acordo com informações do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB).

A Anac disse ainda que, na configuração aprovada para o transporte de passageiros, a capacidade da aeronave é de até nove passageiros. No entanto, no caso da configuração para o lançamento de paraquedistas, em que são removidos os assentos, a avaliação da capacidade é feita pelo peso máximo de decolagem.

Com isso, "a aeronave pode realizar a operação de lançamento de paraquedistas com quantidades superiores a nove pessoas a bordo, limitada ao peso máximo de decolagem de 3.629 quilos", conforme a agência.

Polícia Militar foi ao local do acidente envolvendo um avião em Boituva (SP) — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Polícia Militar foi ao local do acidente envolvendo um avião em Boituva (SP) — Foto: Polícia Militar/Divulgação

A Skydive4Fun afirmou que a aeronave tinha capacidade máxima para 15 paraquedistas e estava com todas as rotinas de manutenção em conformidade com as normas e regulamentos da Anac.

A empresa reforçou ainda que o "tripulante engajado na operação tem elevada experiência de voo e é devidamente habilitado pela Anac com todos os respectivos treinamentos em dia".

Partes do avião que caiu em Boituva (SP) foram achadas — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Partes do avião que caiu em Boituva (SP) foram achadas — Foto: Polícia Militar/Divulgação

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