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Bumba meu boi de matraca: história, personagens e a cadência marcante de um dos sotaques mais populares do Maranhão

Índias do Boi da Maioba, um dos mais tradicionais do sotaque de matraca— Foto: Divulgação / Fabrício Cunha

Índias do Boi da Maioba, um dos mais tradicionais do sotaque de matraca — Foto: Divulgação / Fabrício Cunha

Com uma cadência marcante, embalada pelo som das matracas, pandeirões e toadas emblemáticas, o sotaque de matraca do bumba meu boi do Maranhão, é um dos mais populares do estado. O sotaque é originário da Grande Ilha de São Luís e por conta disso, ele também pode ser conhecido como ‘da Ilha’.

Assim como os outros sotaques que fazem parte do bumba meu boi, não é possível definir a origem exata do sotaque de matraca. Entretanto, uma das características mais comuns na origem dos bois alinhados a esse ritmo, é que muitos surgiram em regiões da zona rural da Grande Ilha. E, boa parte dos membros destes bois, são descendentes de escravos.

Há cerca de mais de 20 grupos de bumba meu boi de matraca espalhados pelos quatro municípios da Grande Ilha (São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa). Entre os grupos mais conhecidos, estão o Boi de Maracanã, Boi da Maioba, Boi de Ribamar e o Boi da Madre Deus.

O sotaque

O sotaque de matraca se caracteriza pelo som estridente das matracas, que em conjunto com os pandeirões, maracás e tambores onça, dão ritmo e arrastam uma multidão de apaixonados pela cultura popular maranhense por avenidas, ruas e arraiais durante o período junino.

As matracas são dois pedaços de madeira retangulares, de tamanho variável, que ao serem batidas umas às outras, ecoam um som agudo e forte.

Ao g1, a doutora, professora e pesquisadora em cultura popular, Letícia Cardoso, explica que as matracas foram instrumentos que entraram por acaso nas brincadeiras. Antigamente, grandes pedaços de madeira eram usados pelos brincantes para se defender das disputas que aconteciam entre os membros de bois rivais.

“Antigamente, haviam muitas disputas entre os bois de matraca e por isso, as matracas foram elementos que entraram no boi por um acaso. Com isso, os bois de matraca foram muito oprimidos e chegaram a ser proibidos de dançar em áreas mais nobres, por conta dessa conotação das disputas”, explica a pesquisadora.

Os pandeirões do boi de matraca — Foto: Divulgação/Governo do Maranhão

Os pandeirões do boi de matraca — Foto: Divulgação/Governo do Maranhão

Outros instrumentos também dão cadência ao sotaque, como os pandeirões. Estes, são tocados em cima dos ombros dos brincantes e há dois tipos deste instrumento: feitos em couro e de nylon.

Os pandeirões de couro são afinados tradicionalmente no calor das fogueiras, até que atingiam o nível de afinação necessário para embalar os grupos. Os de nylon surgiram como apoio já que, geralmente, o período junino é marcado pelas chuvas, o que inviabiliza o aquecimento no fogo.

Batalhões

Batalhão do Boi de Maracanã — Foto: Douglas Júnior/O Estado

Batalhão do Boi de Maracanã — Foto: Douglas Júnior/O Estado

Os bois de matraca são conhecidos popularmente como ‘batalhões’, devido a grande quantidade de brincantes, que são verdadeiros apaixonados. A pesquisadora Letícia Cardoso explica que a denominação também se refere aos batalhões militares que, em sua maioria, são grupos grandes e organizados de soldados.

Além disso, o adjetivo tem uma conotação voltada à luta, uma das principais bandeiras levantadas pelos grupos do sotaque de matraca. Esses bois resistem ao tempo e buscam por condições melhores de vida para sua comunidade, que são manifestadas através dos traços da cultura popular centenária.

“A denominação ‘batalhão’ também representa esse sentido de luta, remonta o tempo das guerras e dos conflitos armados. Mas, a gente pode perceber que eles absorveram essa denominação pela ideia de lutar, resistir, de buscar uma interação com a sociedade por meio do discurso da toada. E a luta dos bois se dá por meio dos seus símbolos, que têm tradições centenárias”, explica a pesquisadora.

Para se ter uma dimensão do tamanho dos batalhões, por exemplo, o Bumba meu Boi de Maracanã, um dos mais tradicionais do Maranhão, possui cerca de 600 brincantes registrados, que saem às ruas com suas indumentárias. Entretanto, esse número pode chegar ao dobro durante as apresentações, com a adesão de outros brincantes, que chegam com suas matracas e pandeirões e se juntam a festa.

Indumentárias

As indumentárias dos bois de matraca possuem características únicas e diferem, em alguns aspectos, das demais vestimentas de bois de outros sotaques. Por serem bois originários da zona rural da Grande Ilha de São Luís, eles utilizam materiais encontrados em animais localizados na região rural, como penas de aves mais rústicas.

Segundo a pesquisadora, as indumentárias foram criadas também, a partir das condições de vida e financeira dos brincantes. “Os brincantes vão criando de acordo com suas condições de vida. Eles usam muita pena de animais, principalmente aqueles da zona rural, porque eles tinham acesso a esse tipo de material. Hoje em dia, claro, já é algo mais sintético, mas no início, usavam-se muitas penas de animais mesmo, já que era o que podia ser extraído de forma gratuita”, explica.

Cablocos de pena do sotaque de matraca — Foto: Divulgação/Centro Cultural Vale

Cablocos de pena do sotaque de matraca — Foto: Divulgação/Centro Cultural Vale

O caboclo de penas é um personagem exclusivo dos bois com sotaque de matraca. Eles usam um grande cocar de penas grandes multicoloridas com bordados na horizontal, uma espécie de saia que possui as mesmas características, junto com adereços também em penas, desta vez, nos braços e pernas. Ele é uma espécie de ser mitológico da lenda do Bumba meu Boi e faz parte do enredo.

Os bois de matraca também contam com as tradicionais índias, que usam vestimentas de penas de ema sintética que são tingidas em cores variadas. Entretanto, uma das características, por exemplo, são que as cores usadas nas penas são mais escuras do que as índias dos bois de sotaque de orquestra.

Os grupos também possuem os caboclos de fita, brincantes com grandes chapéus de fitas coloridas, que possuem em suas vestimentas, bordados à mão feitos na maioria das vezes pelos próprios brincantes, com detalhes de santos ou referências à própria história da brincadeira.

Toadas

Homenagens dos grupos de bumba boi de matraca a São Marçal

Homenagens dos grupos de bumba boi de matraca a São Marçal

As toadas são o estilo de música característico do Bumba meu Boi, sendo uma espécie de música folclórica, com letras simples, que falam sobre natureza, amor, tradição e cultura e contam com harmonia nas melodias, dando cadência aos sotaques.

Uma das características das toadas mais tradicionais do sotaque de matraca é que muitas não foram escritas a mão, mas memorizadas pelos cantadores. Entretanto, com o avanço da tecnologia, os cantadores mais jovens utilizam o celular ou outros aparelhos eletrônicos para gravar as letras e melodias.

Algumas das toadas mais conhecidas do São João do Maranhão, foram criadas pelos cantadores dos grupos de bois de matraca. Por serem sinônimo de tradição e cantar o amor ao estado, algumas chegaram a ganhar regravações, nas vozes de artistas maranhenses reconhecidos nacionalmente.

Nomes como João Chiador e Humberto de Maracanã, são considerados expoentes e ícones da cultura popular maranhense, por terem contribuído com a composição de toadas que ficaram eternizadas entre os maranhenses e são motivo de orgulho para quem é apaixonado pelo Bumba meu boi.

Humberto de Maracanã— Foto: Douglas Júnior/O Estado

Humberto de Maracanã — Foto: Douglas Júnior/O Estado

Se você já veio ao Maranhão no período junino, provavelmente deve ter escutado os seguintes versos: “Maranhão, meu tesouro, meu torrão. Fiz essa toada, para ti, Maranhão”. Esta toada foi composta pelo cantador Humberto de Maracanã e virou um verdadeiro ‘hino’ do Maranhão.

Humberto de Maracanã foi amo, cantor e compositor do Bumba meu boi de Maracanã, um dos mais tradicionais do Estado. Ele foi considerado como uma referência da cultura popular maranhense e suas composições foram regravadas por outros artistas como, por exemplo, a cantora maranhense Alcione.

A professora e doutora Letícia Cardoso realizou uma pesquisa tendo como base o terreiro do boi de Maracanã. Ela explica que além de ser considerado um expoente da cultura popular, Humberto de Maracanã também era um grande ambientalista, já que muitas de suas toadas, tinham como temática principal a natureza.

“Uma das temáticas mais presentes nas toadas de Humberto é a natureza. É uma coisa muito forte, cantar as belezas naturais da sua região, e ele fazia isso para exaltar não só a beleza por si só, mas como uma forma de pertencimento da comunidade. Para que eles se todos os membros da comunidade se orgulhem do seu lugar e o protejam”, conta.

Esta herança foi deixada por nossos avós, hoje cultivada por nós, pra compor tua história, Maranhão.
— Trecho da toada 'Maranhão, Meu Tesouro, meu Torrão', do Boi de Maracanã.

O amor e as mulheres também eram temas de todas compostas por Humberto de Maracanã. Tanto talento com as palavras, lhe rendeu não somente o reconhecimento local como expoente da cultura, mas nacional. Em 2008, Humberto foi reconhecido pelo Ministério da Cultura como Mestre em Cultura Popular.

O cantador também contribuiu com algumas toadas importantes como ‘Cidade dos Azulejos’ e ‘Nossa Senhora Aparecida’. Humberto de Maracanã morreu morreu em 2015, aos 75 anos.

João Chiador — Foto: Antonio José / Divulgação

João Chiador — Foto: Antonio José / Divulgação

Outro grande expoente da cultura popular maranhense é João Costa Reis, conhecido como 'João Chiador'. O cantador teve passagens pelo Boi da Maioba e Boi de Ribamar e, sendo carinhosamente conhecido como é chamado de ‘Pavarotti da Cantoria ou Currupião’. Ele foi autor de grandes toadas, por exemplo, ‘Nossa Senhora Aparecida’, considerada uma das mais belas toadas já compostas.

João Chiador morreu em 2017, aos 78 anos. Mesmo após sua partida, o legado de Chiador permanece vivo na memória dos maranhenses e serve de inspiração para a nova geração de amos e cantadores do Bumba meu Boi do Maranhão.

Repórter Mirante faz tributo ao cantador de Bumba Meu Boi João Chiador

Repórter Mirante faz tributo ao cantador de Bumba Meu Boi João Chiador

Mapa dos bois de matraca

A pesquisadora em cultura popular, Letícia Cardoso, tem desenvolvido um mapeamento dos grupos de Bumba meu boi do sotaque de matraca na Grande Ilha de São Luís. Até o momento mais de 20 grupos foram mapeados pela pesquisadora.

Ao g1, ela conta que o estudo ainda está em andamento e o resultado final deve ser publicado em breve. Segundo Letícia Cardoso, o número de grupos mapeados ainda pode sofrer alterações mas a ideia principal, é identificar quem são esses grupos e quais são as regiões eles que eles são originários na Grande Ilha.

Veja, abaixo, a lista dos bois de matraca já mapeados pela pesquisa:

  1. Boi Proteção de São João do Anjo da Guarda
  2. Boi Mimoso de São João-Maria da Fita
  3. Boi da Madre Deus
  4. Boi de Maracanã
  5. Boi de Estrela do Oriente Estrela Dalva
  6. Boi da Maioba
  7. Boi da Pindoba
  8. Boi de Iguaíba
  9. Boi Matraca de Panaquatira
  10. Boi Sítio do Apicum
  11. Boi do Jaguarema
  12. Boi de São José de Ribamar
  13. Boi Tremor da Campina
  14. Boi Estrela Maior
  15. Boi Boizinho Precioso
  16. Boi de Matraca do Maiobão
  17. Boi da Matinha
  18. Boi da Mata Grande
  19. Boi Mimo de São João da Cidade Olímpica
  20. Boi da Vila Vitória - Estrela D’Alva
  21. Boi de Juçatuba


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