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Haitiano que vive em MS descobre que primo é um dos mortos em terremoto: 'Não consegui segurar as lágrimas'

Esposa do primo de Jaunel Ilora recebendo os primeiros atendimentos após perder o marido no terremoto — Foto: Junel Haitiano/Arquivo pessoal

Esposa do primo de Jaunel Ilora recebendo os primeiros atendimentos após perder o marido no terremoto — Foto: Junel Haitiano/Arquivo pessoal

O corpo do primo de Jaunel Ilora, que vive há 5 anos em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, foi encontrado na manhã dessa segunda-feira (16), em meio aos escombros da casa que morava, destruída pelo maior terremoto da história do Haiti. O tremor deixou centenas de mortos.

Ansioso por notícias dos 5 parentes que desde o último sábado estavam desaparecidos, devido ao terremoto, foi somente nesta manhã que Jaunel recebeu a ligação com notícias dos familiares.

"Infelizmente meu primo não resistiu. Ele não conseguiu sair da casa onde morava e hoje cedo foi utilizado um trator para remover os escombros para retirá-lo", explicou ao G1.

Haitiano que vive em MS fala do desespero de conseguir contato com familiares que moram na região afetada pelo tremor — Foto: Júnior Dena/Foto

Haitiano que vive em MS fala do desespero de conseguir contato com familiares que moram na região afetada pelo tremor — Foto: Júnior Dena/Foto

Conforme Jaunel, já faziam 48 horas que, sem sucesso, tentava contato com cinco pessoas de sua família —um primo e sua esposa, com mais três filhos do casal. Todos viviam na região sul do país, local bastante afetado pelo tremor. Até está segunda o número de mortos chegava a 1.297 pessoas. As cidades de Cayes e Jérémie, no sudoeste do país, foram as mais atingidas.

"Depois que meu irmão me ligou e falou o que estava acontecendo, eu mais uma vez não consegui segurar as lágrimas", lamentou.

Jaunel conta que o primo Jean Robert, de 52 anos, estava no centro da residência quando ocorreu o terremoto. A esposa e os filhos estavam na parte da frente e fora do imóvel que ficou totalmente destruído.

"A situação lá está caótica. Sem rede de energia e de telefone. Espero que as coisas melhorem. Perdi alguns vizinhos e pessoas conhecidas", disse.

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Pessoas caminham entre escombros de casas destruídas pelo terremoto em Les Cayes, no Haiti — Foto: Jose Flecher/cortesia via Reuters

Pessoas caminham entre escombros de casas destruídas pelo terremoto em Les Cayes, no Haiti — Foto: Jose Flecher/cortesia via Reuters

Conforme Jaunel, a preocupação ainda é grande porque em 2010, quando ocorreu outro grande terremoto no Haiti, um dos maiores da história do país, ele perdeu 13 pessoas da família. Na ocasião, foram mais de 200 mil mortos na tragédia.

"Com esse novo desastre, infelizmente o número de mortos ainda vai subir mais. É uma dor inexplicável que sinto, por conta da situação que país enfrenta neste momento", finaliza.

Neste último domingo (15), parte da comunidade haitiana em Campo Grande se reuniu para fazer um levantamento das famílias com parentes nas áreas afetadas pelo tremor e reforçaram o pedido de ajuda para o Brasil.

"Queremos ajuda do país que estamos vivendo, para permitir trazer pessoas próximas a nós. Isso só seria possível facilitando a questão de documentação", opina.

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O terremoto

À terra tremeu às 8h30. O epicentro estava no sudoeste do país, na ponta da península Tiburon. Les Cayes e Jeremie foram as cidades mais atingidas; 130 mil pessoas vivem nessa área.

A magnitude do terremoto foi de 7,2, maior que a registrada no terremoto de 2010, que teve intensidade 7 e atingiu a capital, Porto Príncipe, matando mais de 200 mil pessoas. O epicentro do terremoto deste sábado fica na mesma falha geológica que causou o terremoto de 2010, onde se chocam as placas tectônicas da América do Norte e do Caribe. O tremor foi sentido em todas as ilhas do Caribe.

O editor do principal jornal do Haiti descreveu assim o terremoto: “Lentamente, fortemente, durante longos segundos, o Haiti tremeu.”

Crise política e humanitária

O terremoto atinge o Haiti em um momento de forte crise política, agravada pelo assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho deste ano.

Moïse dissolveu o Parlamento e governava por decreto havia mais de um ano, após o país não conseguir realizar eleições legislativas, e queria promover uma polêmica reforma constitucional.

VÍDEO: presidente do Haiti é assassinado em ataque em casa

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Depois do assassinato do presidente por um grupo de mercenários, um governo interino assumiu o controle do país até a realização de novas eleições.

A nação mais pobre das Américas tem um longo histórico de ditaduras e golpes de Estado.

Nos últimos meses, o Haiti enfrentava também uma crescente crise humanitária, com escassez de alimentos e aumento nas taxas de violência.

Haiti — Foto: Amanda Paes/G1

Haiti — Foto: Amanda Paes/G1

O PIB per capita do país é de US$ 1,6 mil por ano (cerca de R$ 8,5 mil), e cerca de 60% da população vive com menos de US$ 2 por dia (pouco mais de R$ 10).

O Haiti tem 11,3 milhões de habitantes, faz fronteira com a República Dominicana na ilha Hispaniola, no Caribe, e tem um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo: 0,51.

Moradores observam casas que desabaram com o terremoto em Les Cayes, no Haiti — Foto: Ralph Tedy Erol/Reuters

Moradores observam casas que desabaram com o terremoto em Les Cayes, no Haiti — Foto: Ralph Tedy Erol/Reuters

Nos Estados Unidos, o presidente Biden anunciou o envio imediato de ajuda humanitária ao Haiti, como aconteceu depois do terremoto de 2010. A embaixadora Samantha Powell é quem vai cuidar desta operação. Biden disse que os EUA ajudarão na reconstrução depois de mais essa tragédia.


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