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Alunos indígenas de MT tiveram dificuldades nos estudos por atrasos em apostilas impressas na pandemia

Alunos ficaram quase dois anos estudando de forma remota com apostilas — Foto: Klemer Ikipeng

Alunos ficaram quase dois anos estudando de forma remota com apostilas — Foto: Klemer Ikipeng

Sem apostilas e materiais de apoio para que os alunos estudassem em casa durante o isolamento por causa da pandemia da Covid-19, as escolas indígenas em Mato Grosso intensificaram as atividades sobre os saberes tradicionais. É o que afirma o professor Klemer Ikpeng, que há nove anos atua como diretor da Escola Estadual Indígena Central Ikpeng, em Feliz Natal (MT), no território do Parque Nacional do Xingu.

"Nesse tempo da pandemia nossos alunos não recebiam material impresso. Então, desenvolvemos com os alunos atividades de práticas culturais indígenas, com foco na valorização e fortalecimento da cultura e da língua materna", afirmou.

Segundo o professor, devido ao vírus, as famílias se isolaram mais ainda e foram para áreas distantes da Aldeia Central, para evitar o contágio.

"Assegurar o acesso às atividades de ensino remoto para todos os nossos estudantes foi uma tarefa complicada. As famílias se refugiaram na margem de rios, na mata mesmo e junto levaram seus filhos, nossos alunos, tudo para não serem contaminados pelo vírus. Todos estavam longe e nossa escola sem nenhuma estrutura logística, como barco, motor e combustível", explicou.

A escola tem quase 300 alunos.

Professores foram divididos por aldeias, acampamentos e salas anexas — Foto: Klemer Ikipeng

Professores foram divididos por aldeias, acampamentos e salas anexas — Foto: Klemer Ikipeng

Para garantir o acompanhamento das atividades, os professores foram divididos e auxiliavam os alunos da região designada. A alternativa encontrada foi a seguinte: os professores foram divididos por aldeias, acampamentos e salas anexas e cada grupo ficou responsável por realizar o acompanhamento e monitoramento do processo de aprendizagem dos estudantes.

Apesar do isolamento, o professor afirma que a pandemia da Covid-19 acabou atingindo grande parte da população e três idosos chegaram a ter complicações por conta da doença.

Escola Estadual Central Ikipeng tem estrutura pecária — Foto: Klemer Ikipeng

Escola Estadual Central Ikipeng tem estrutura pecária — Foto: Klemer Ikipeng

O isolamento ajudou que o vírus não se propagasse rápido na comunidade, mas não foi suficiente para evitar a contaminação. "Minha comunidade não teve vítimas e a maioria teve sintamos leves. Porém, três anciãos tiveram complicações, mas estão recuperados", disse.

Para o diretor da Escola Estadual Indígena Tapura Irantxe, José Pedro Venâncio, em Brasnorte, a 580 km de Cuiabá, ninguém estava preparado para lidar com a situação, mas a escola conseguiu junto com os professores elaborar um material específico para os alunos estudarem de forma remota.

“Na pandemia ficamos preocupados com os alunos e a comunidade e como iríamos lidar com a situação. Isso foi um grande desafio para nós. Mas as atividades com os alunos foram por meio de apostilas, que os professores preparavam com todo cuidado”, contou.

Educação indígena enfrentou falta de apoio na pandemia — Foto: Klemer Ikipeng

Educação indígena enfrentou falta de apoio na pandemia — Foto: Klemer Ikipeng

A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) confirmou que levou mais tempo, se comparado com as escolas das cidades, para que os materiais chegassem até as unidades indígenas, por conta da complexidade para acessar os territórios.

"É muito mais complexo do que você entregar o material aqui na cidade, que em dois, três dias estavam disponíveis. Demorava muito mais tempo para você levar esse material para as aldeias. Pois era proibido entrar nas terras indígenas. Para que a gente pudesse conseguir levar o material e dar o suporte para eles, no primeiro momento, nós precisamos de uma autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio) e da Saúde, mas não é da saúde do estado. A saúde indígena está ligada ao Ministério da Saúde, não é algo simples, em que nós chegaríamos aqui e ligaria para pedir uma autorização. Essa autorização dependia de um contato lá no Ministério da Saúde, em Brasília", afirmou a superintendente da Diversidade da Seduc, Lúcia Aparecida.

Para resolver o problema, eles conseguiram parcerias para levar os materiais didáticos e até kits de alimentação, que foram entregues para todas às comunidades indígenas de Mato Grosso.

Foi feita uma parceria com a Funai e com a saúde pública e nas salas foram montados prontos-atendimentos para isolamento de pessoas contaminadas nas aldeias.

"Esse momento foi muito interessante, nós estendemos a mão para Saúde e a Saúde estendeu para nós. A primeira parceria nós fizemos dessa forma e todas as vezes que a gente precisava enviar material impresso, kit de alimentação, porque nós enviamos kit de alimentação para todas as aldeias do estado, onde tinha estudante nós conseguimos enviar com apoio da saúde e da Funai", afirmou a superintendente.

Volta às aulas presenciais

Segundo a professora e diretora da Escola Indígena Julá Paré, da Aldeia Umutina, em Barra do Bugres, a 169 km de Cuiabá, Eliane Monzilar Boroponé, o retorno tem sido um desafio, mas os professores têm desenvolvido atividades extras curriculares para auxiliar os alunos que tem mais dificuldades.

"A nossa preocupação foi o ensino aprendizagem dos alunos, porque há relato dos pais e alunos que tiveram muita dificuldade, nesse processo. Teve pai com facilidade de ensinar os seus filhos, porém, por outro lado, tiveram pais que não conseguiram em determinadas matérias. Estamos realizando oficinas para recuperar essas lacunas de aprendizagem e aulas de reforço para os alunos que precisam de mais atenção", disse.

Já Klemer informou que as famílias estão retornando agora para a Aldeia Central e, com isso, aos poucos, os alunos também estão voltando para sala de aula. “Continuamos trabalhando e nos adaptando ao contexto da pandemia, o que levamos de lição é que conseguimos superar o momento com união e valorizamos ainda mais a nossa cultura”.


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