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Pandemias, guerra, ditadura: no aniversário de 461 anos de Mogi conheça as crises que a cidade já viveu e superou

Mogi das Cruzes completa 461 anos nesta quarta-feira (1º) — Foto: Bruno Arib/Arquivo Pessoal

Mogi das Cruzes completa 461 anos nesta quarta-feira (1º) — Foto: Bruno Arib/Arquivo Pessoal

A comemoração de um aniversário significa o início de um novo ciclo, repleto de novos aprendizados e desafios. Durante uma pandemia, a data leva a muitas reflexões. Nesta quarta-feira (1º), Mogi das Cruzes completa 461 anos. Ao longo destes quatro séculos, a cidade já passou por outra crise sanitária, viveu as consequências da guerra e a ditadura.

Diante de cada dificuldade, Mogi sempre se reergueu. Uma viagem pela história traz esperança que desta vez não será diferente. O G1 mostra nesta reportagem parte dos desafios que o município mais antigo do Alto Tietê já superou.

1918 - A outra pandemia

No começo de 2020, o mundo todo foi surpreendido com a disseminação de um inimigo "invisível". Em Mogi não foi diferente. De uma hora para outra, comércios foram fechados, o uso de máscara passou a ser obrigatório e o álcool em gel passou a fazer parte da rotina. O que poucos sabem é que outra pandemia já assustou os moradores do município em 1918: a gripe espanhola.

Em dois anos, a pandemia deixou cerca de 500 vítimas fatais na cidade. Número pequeno em relação aos índices da pandemia de Covid-19, mas avassalador para o total de habitantes na época. Segundo o professor e doutor em história Mário Sérgio de Moraes, Mogi contava com quase 20 mil habitantes, sendo que apenas 1,3 mil pessoas viviam no centro urbano.

"Naquele período as pessoas não tinham conhecimento técnico da ciência como hoje. O tratamento da gripe espanhola era feito com chá, a eficiência dos produtos era muito pequena e, além disso, se disseminava uma ideia religiosa de que a gripe era castigo dos deuses", explica.

O responsável pela estabilização razoável da pandemia foi o doutor Deodato Wertheimer, que liderou campanhas de combate à gripe e também ficou à frente dos trabalhos no ‘hospital dos gripados”.

Livro de registro de mortos que indicam as vítimas fatais da gripe espanhola do cemitério São Salvador — Foto: Ralph Siqueira/TV Diário

Livro de registro de mortos que indicam as vítimas fatais da gripe espanhola do cemitério São Salvador — Foto: Ralph Siqueira/TV Diário

1936 - O Teatro vira Câmara

Até mesmo o principal palco cultural da cidade já passou por altos e baixos. Patrimônio histórico do município, o Theatro Vasques foi construído a partir da venda de ações de um grupo de Mogi e inaugurado em 6 de dezembro de 1902.

Suas paredes contam muitas histórias, inclusive da recuperação depois da gripe espanhola. Mas, com a queda no consumo de alguns espetáculos teatrais, o teatro foi abandonado e em 1936 passou por reforma e se tornou sede da Câmara Municipal. A cultura perdeu seu espaço.

Com o golpe do Estado Novo dado pelo Getúlio Vargas em 1937, o Congresso Nacional foi fechado, assim como as assembleias estaduais e câmaras municipais.

Câmara Municipal de Mogi em 1936 — Foto: Arquivo Histórico/Acervo

Câmara Municipal de Mogi em 1936 — Foto: Arquivo Histórico/Acervo

O teatro só reabriu em 1948, ainda como Câmara Municipal. O local foi reformado e reinaugurado como teatro apenas em 1980, com o nome Theatro Municipal "Paschoal Carlos Magno". Após uma nova reforma em 2002, o prédio volta a chamar Theatro Vasques.

De acordo com o historiador Glauco Ricciele, a cidade não sofreu sanções à respeito do Estado Novo. "As terras pertenciam sempre aos mesmos donos, então as pessoas que não faziam parte do 'grupo de autoridades' não podiam desobedecer o poder. Além disso, a cultura municipal era bem tradicional e contava somente com clubes de lazer e de futebol, nada que fosse contra aos ideais do governo".

1940 - Os mogianos na guerra

A Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, não teve batalhas em solo brasileiro, mas deixou marcas no país e também em Mogi das Cruzes. Segundo o historiador Mário Sérgio de Moraes, um dos maiores grupos de combatentes brasileiros enviados à Europa era da cidade.

Famílias viviam a apreensão da falta de notícias e o medo de pais, filhos, irmãos não conseguirem voltar da guerra. Aos 99 anos, Paulo Pereira Carvalho é o único pracinha vivo de Mogi das Cruzes. Um dos seus maiores orgulhos é a medalha de vitória junto de um diploma que recebeu em 2017, enviada pelo Ministério da Defesa.

O ex-combatente já não consegue se comunicar bem, mas sua filha, Elizabeth Brasil de Carvalho Nogueira, lembra das histórias que o pai contava.

"Meu pai era mensageiro, levava mensagens da frente de batalha para onde as pessoas estavam. Um dia, ele saiu em uma missão e, para cortar caminho, decidiu ir por um terreno vazio que tinha uma placa em inglês escrito 'Danger: mine' [Perigo: mina]. Como ele não entendia inglês, continuou o percurso. Depois de um tempo, começou a ligar os pontos e pensou 'nossa, estou em um campo minado'. O que salvou foi o terreno úmido, porque assim ele conseguiu voltar refazendo os passos, seguindo as pegadas que tinha deixado", conta Elizabeth.

Diploma Soldado da Democracia de Paulo Pereira de Carvalho — Foto: Mirielly de Castro/TV Diário

Diploma Soldado da Democracia de Paulo Pereira de Carvalho — Foto: Mirielly de Castro/TV Diário

"Ele voltou da guerra um pouco traumatizado por ter perdido amigos, literalmente, ao seu lado. Viu companheiros caindo, levando tiros na cabeça e isso o fez odiar bombinhas, rojões e coisas que lembrem armas ou tiros de canhão. Na virada do ano, quando começam os fogos, ele tampa os ouvidos e não gosta de ficar escutando", conta Elizabeth.

Os filhos de outros pracinhas também contam que os pais voltaram muito abalados da guerra e não eram tão abertos a falar sobre os momentos que viveram na Itália.

"Eu sentia esse bloqueio no meu pai. Quando se falava algo sobre guerra, ele sempre ficava na defensiva, não queria fazer muitos comentários. Fui descobrindo essas histórias aos poucos", conta Francisco Machado Pires Júnior, filho do ex-combatente Francisco Machado Pires.

Segundo Júnior, a fome na Europa chocou seu pai. Muitas vezes os soldados brasileiros optavam, por conta própria, por ceder a comida que as tropas americanas forneciam, alimentos enlatados mas em grande quantidade, para os italianos.

"Uma vez ele contou com lágrimas nos olhos que a fome era tanta que um pai ofereceu a própria filha para os soldados em troca de alimento. Naquele momento todos se uniram, juntaram os alimentos que tinham em estoque e ajudaram o pai da moça", diz.

Grande amigo de Francisco, Dúlio Lopes era um dos únicos pracinhas que sabia dirigir. Foi selecionado para levar munição e comida para os soldados que estavam na frente de combate.

Grupo de pracinhas de Mogi; Francisco Machado Pires é o que está em pé no jipe e Dúlio Lopes dirigia o veículo — Foto: Francisco Machado Pires Júnior/Arquivo Pessoal

Grupo de pracinhas de Mogi; Francisco Machado Pires é o que está em pé no jipe e Dúlio Lopes dirigia o veículo — Foto: Francisco Machado Pires Júnior/Arquivo Pessoal

Segundo o filho do cabo, Francisco Lopes, este serviço só podia ser realizado durante a noite porque de manhã as tropas inimigas ficavam de olho e, se vissem qualquer sinal de movimentação, lançavam bomba. Então, durante o dia o soldado ficava na casa dos italianos e à noite abastecia o jipe com comida, medicamentos e munição. Às 22h seguia para a frente de combate com o veículo todo apagado para entregar o material e voltava por volta de 0h.

"Quando acabou a guerra, ele voltou com trauma de escuro. Durante a minha adolescência, meu pai não dormia sem uma luz acesa em algum lugar. Ele dizia não aguento ficar de luz apagada não, já chega o que sofri na Itália'", conta.

Expedicionários durante o Natal de 1944 na Itália; Dúlio Lopes é o soldado que está agachado em frente ao jipe, na foto do canto inferior direito — Foto: Francisco Lopes/Arquivo Pessoal

Expedicionários durante o Natal de 1944 na Itália; Dúlio Lopes é o soldado que está agachado em frente ao jipe, na foto do canto inferior direito — Foto: Francisco Lopes/Arquivo Pessoal

1964 - A ditadura

O historiador Glauco Ricciele conta que a ditadura militar foi um marco para a cidade porque, ao contrário do Estado Novo, em que a população da cidade era considerada "tradicionalista", em 1964 a cultura era de contestação.

"A perseguição em cima de grupos estudantis, universidades e centros acadêmicos sempre existiu, mas se potencializou durante este período", explica.

Mensagem escrita na parede de uma instituição de ensino em Mogi — Foto: Glauco Ricciele/Arquivo Pessoal

Mensagem escrita na parede de uma instituição de ensino em Mogi — Foto: Glauco Ricciele/Arquivo Pessoal

Além disso, o grupo de metalúrgicos também era perseguido, porque a profissão deles era criminalizada pelos militares.

Alguns grupos começaram a ser investigados pela aeronáutica e pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Professores foram demitidos. As manifestações envolviam palestras e encontros. Segundo Ricciele, os atos eram amistosos, mas os participantes faziam questão de deixar clara sua opinião, contrária a dos militares.

2020 - Uma nova pandemia

Em março de 2020, com as restrições necessárias por causa do coronavírus, Mogi viu sua rotina virar de ponta-cabeça de uma hora para outra e vários desafios surgiram, como manter a saúde e o emprego dos moradores — Foto: Débora Carvalho/TV Diário

Em março de 2020, com as restrições necessárias por causa do coronavírus, Mogi viu sua rotina virar de ponta-cabeça de uma hora para outra e vários desafios surgiram, como manter a saúde e o emprego dos moradores — Foto: Débora Carvalho/TV Diário

No início de 2020, uma nova crise e mais uma vez sanitária. Notícias sobre a circulação de um novo vírus começaram a circular no país. De repente, o comércio foi fechado, as aulas suspensas. Para quem podia, a recomendação era ficar em casa.

Segundo a dona de casa Elaine Souza, o começo foi o mais difícil, principalmente por precisar lidar com algo desconhecido.

"Mesmo após o primeiro caso, ainda tinha esperança de que não se tornaria algo tão grande como se tornou. Medo, incerteza e aquele pensamento de 'e agora, o que a gente vai fazer?'".

Em alguns períodos de lá para cá, Mogi ficou com todos os leitos de enfermaria e UTI ocupados. Até esta terça-feira (31), a cidade somava 1622 mortos por causa da Covid-19.

Elaine conta que já tinha ouvido falar de outras epidemias e da pandemia de gripe espanhola, mas que nunca imaginou que passaria por uma situação parecida.

Após longos meses de apreensão, a esperança começou a ganhar espaço com a vacinação, que chegou em janeiro.

"Quando eu vi que a data da minha vacinação estava próxima senti um alívio tão grande, porque parecia que esse momento nunca ia chegar e fiquei feliz por ver que estava tudo caminhando para uma possível normalização".

Elaine Souza no dia em que tomou a imunização contra a Covid-19 — Foto: Elaine Souza/Arquivo Pessoal

Elaine Souza no dia em que tomou a imunização contra a Covid-19 — Foto: Elaine Souza/Arquivo Pessoal

"A pandemia vai ficar marcada em Mogi, principalmente por causa da economia. Andando no centro é possível ver que vários comércios, que estavam há anos ali, fecharam. Muitas pessoas em situação de vulnerabilidade, é muito impactante. Foi uma mudança muito brusca para a cidade", completa.

História em construção

Quem também se sentiu mais aliviada com vacina e sente que isso ficará marcado para sempre em sua história é a videomaker Evelin Cristina de Souza.

"Acredito que toda a geração tem a sua grande doença. Na geração dos meus pais foi o vírus da imunodeficiência humana (HIV), cresci com os meus pais contando histórias sobre os amigos que eles tinham e o boom que foi naquela época. Já a nossa geração, foi a Covid-19", diz.

Evelin conta que desde pequena é interessada por história, especificamente a história de Mogi. Ela lembra que uma professora pediu que os alunos realizassem um trabalho e dividiu os temas para cada um. O seu trabalho era sobre Gaspar Vaz e, ao começar a pesquisar sobre a história do bandeirante, decidiu ler ainda mais sobre o município.

"Uma coisa que foi muito marcante para a minha história enquanto mogiana foi conhecer o Casarão do Chá. Temos diversos prédios históricos em Mogi, mas nada como o Casarão. Somos um polo cultural asiático, uma cidade muito boa e rica culturalmente. Eu não me imagino morando em outro lugar".

Evelin Cristina Souza em uma de suas visitas ao Casarão do Chá — Foto: Evelin Cristina Souza/Arquivo Pessoal

Evelin Cristina Souza em uma de suas visitas ao Casarão do Chá — Foto: Evelin Cristina Souza/Arquivo Pessoal

A pandemia trouxe a cada um a sensação de fazer parte da história, de ser personagem de um de seus capítulos, mas para o historiador Mário Sérgio de Moraes é importante conhecer também outros períodos da trajetória secular do município.

"Peço que vocês busquem conhecimento sobre a cidade. Conheçam a história dos seus pais, avós e bisavós para que saibam a importância que nós temos".

A dona de casa Elaine espera contar para seus netos e bisnetos a experiência de viver uma pandemia. "Contar todos os momentos que passei e como as pessoas se sentiram para que eles não conheçam a história apenas pelos livros", diz.

*Sob a supervisão de Fernanda Lourenço

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