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Guerra do Tigré completa 1 ano com milícia perto de chegar à capital da Etiópia; entenda o conflito

Militares da ativa e da reserva na Etiópia participam de evento em memória dos soldados etíopes mortos na Guerra do Tigré, em evento nesta nesta quarta-feira (3) que relembrou 1 ano do início do conflito— Foto: AP Photo

Militares da ativa e da reserva na Etiópia participam de evento em memória dos soldados etíopes mortos na Guerra do Tigré, em evento nesta nesta quarta-feira (3) que relembrou 1 ano do início do conflito — Foto: AP Photo

O governo da Etiópia acaba de completar um ano de guerra contra as forças da região do Tigré, no norte do país, diante de uma possível reviravolta: as milícias rebeldes, contra o primeiro-ministro e Nobel da Paz Abiy Ahmed, ganharam força e estão perto de chegar à capital etíope, Adis Abeba.

Por causa do aumento da tensão, Abiy Ahmed decretou um estado de emergência no país e pediu que os etíopes se preparem para "tempos difíceis". O Nobel da Paz ainda teve uma postagem do Facebook apagada por ordem da rede social por incitar a violência, ao pedir que os etíopes "enterrem" os combatentes de Tigré, a quem chama de "terroristas"(leia mais sobre Abiy Ahmed no fim da reportagem).

Os conflitos começaram em novembro de 2020, quando Abiy Ahmed decidiu fazer uma operação para desmontar a Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF, na sigla em inglês). O premiê prometeu uma intervenção curta, mas a ofensiva se converteu em uma sangrenta guerra civil com abusos das duas partes envolvidas.

Há denúncias de grave violação dos direitos humanos, incluindo estupros e massacres a civis. Milhares de pessoas morreram, e outras centenas de milhares sofrem com a fome.

  • SAIBA MAIS:5 curiosidades sobre a Etiópia, país onde o ano tem 13 meses

A guerra simboliza um rápido declínio da Etiópia, antes um país que demonstrava bom crescimento econômico e uma abertura cada vez mais evidente para o resto do mundo.

O conflito representa também um choque em relação a Abiy Ahmed, agora acusado de massacres contra a população Tigré apenas dois anos depois de receber o prêmio Nobel da Paz.

SAIBA MAIS nesta reportagem sobre a Guerra do Tigré na Etiópia:

  1. O que é o Tigré e o que é a TPLF
  2. Como os confrontos começaram
  3. Avanços da TPLF e temor na capital
  4. A crise humanitária
  5. Como Abiy Ahmed passou de Nobel da Paz para símbolo de uma guerra

MAPA - Tigré, Etiópia — Foto: g1

MAPA - Tigré, Etiópia — Foto: g1

O que é o Tigré e o que é a TPLF

O Tigré é a região mais ao norte da Etiópia, na fronteira com a Eritreia, com uma população de cerca de 7 milhões de pessoas — a maioria de uma etnia local, os tigreanos, que respondem por cerca de 6% de todos os etíopes.

A região ganhou relevância graças ao sistema federal na Etiópia, em que os grupos étnicos têm mais poder sobre as partes do país em que controlam.

Nos anos 1990, uma dessas representações era a TPLF, milícia que tomou o controle do Tigré após duas décadas de intenso conflito contra uma junta militar na região.

Integrantes da Frente de Libertação do Povo do Tigré — Foto: Tiksa Negeri/Reuters

Integrantes da Frente de Libertação do Povo do Tigré — Foto: Tiksa Negeri/Reuters

Embora o poder da TPLF ficasse mais restrito ao Tigré propriamente dito, o grupo, que tinha também um partido político, integrava a coalizão que dominava a Etiópia. E, nesse período, o país africano registrou grandes saltos na economia. Por outro lado, denúncias de corrupção e de desrespeito aos direitos humanos ganharam força nos últimos anos.

Aí entra a figura de Abiy Ahmed, primeiro-ministro eleito em 2018 que dissolveu a coalizão no ano seguinte com um discurso pró-direitos humanos e centralizou o poder na Etiópia — o que gerou grande descontentamento entre as facções regionais incluindo a TPLF.

Como os confrontos na Etiópia começaram

Integrantes da milícia de Amhara dirigem-se para o Tigré para enfrentar a TPLF, em 9 de novembro de 2020 — Foto: Reuters/Tiksa Negeri

Integrantes da milícia de Amhara dirigem-se para o Tigré para enfrentar a TPLF, em 9 de novembro de 2020 — Foto: Reuters/Tiksa Negeri

Abiy Ahmed iniciou em 4 de novembro de 2020 — quando o mundo ainda tinha os olhos voltados para a eleição presidencial nos Estados Unidos — uma ofensiva contra o braço armado da TLPF no Tigré.

O primeiro-ministro alegou oficialmente que a ofensiva era necessária porque a TLPF teria atacado bases militares etíopes. A milícia do Tigré até hoje nega a autoria dessas ações.

Além disso, poucas semanas antes do início dos ataques, o Tigré organizou eleições regionais mesmo contra a determinação das autoridades etíopes de suspender processos eleitorais na pandemia. Nessa votação, em setembro de 2020, o TLPF demonstrou grande força na região.

Fumaça preta e destruição após confrontos em Mekele, na região do Tigré, em 20 de outubro de 2021 — Foto: AP Photo

Fumaça preta e destruição após confrontos em Mekele, na região do Tigré, em 20 de outubro de 2021 — Foto: AP Photo

Em um primeiro momento de conflito, as forças oficiais da Etiópia pareciam vencer os rebeldes em Tigré com uma certa rapidez. Em 28 de novembro, menos de um mês após o início dos ataques, o governo etíope declarou vitória em Mekele, capital da região.

Porém, a TLPF não se rendeu. Os confrontos atravessaram a virada de 2020 e entraram em 2021 sem que houvesse transparência sobre o que realmente acontecia em Tigré. Em meados deste ano, os sinais de avanço dos rebeldes ficaram ainda mais claros — o que mostram que o conflito ainda está longe de uma solução.

Avanços da TPLF e temor na capital

Tanque destruído é visto na região do Tigré, na Etiópia, em maio de 2021 — Foto: Ben Curtis, Arquivo/AP Photo

Tanque destruído é visto na região do Tigré, na Etiópia, em maio de 2021 — Foto: Ben Curtis, Arquivo/AP Photo

Em junho deste ano, a TLPF lançou um contra-ataque que lhe permitiu reconquistar a maior parte do Tigré, inclusive a capital regional, Mekele. O exército etíope se retirou, e, acuado, o governo de Abiy declarou um "cessar-fogo humanitário".

A diferença é que a ofensiva da facção pró-Tigré não parou, e a TPLF avançou para as regiões vizinhas de Afar e Amhara. Com isso, o conflito se espalhou em outros cantos da Etiópia onde já havia crises étnicas históricas. Alguns grupos passaram a apoiar os militares de Abiy Ahmed. Outros, fizeram fileiras com os rebeldes tigreanos — que queriam também tirar a região do isolamento imposto pelo governo do primeiro-ministro.

Policiais exibem armas durante parada militar em Addis Abeba, capital da Etiópia, em 19 de junho, véspera das eleições locais — Foto: Ben Curtis, arquivo/AP Photo

Policiais exibem armas durante parada militar em Addis Abeba, capital da Etiópia, em 19 de junho, véspera das eleições locais — Foto: Ben Curtis, arquivo/AP Photo

Recentemente, a situação ficou ainda mais alarmante para o governo etíope de Abiy porque milicianos da TPLF se aproximaram da capital Adis Abeba — que não só é a capital da Etiópia como também é uma das mais importantes cidades de todo o continente africano, com um aeroporto com conexões para todo o mundo.

A piora na crise levou o governos estrangeiros, inclusive dos Estados Unidos, a tentar demover as forças do Tigré a avançarem sobre Adis Abeba. O governo etíope declarou estado de emergência nesta semana, medida que vale por seis meses e permite às autoridades:

  • decretar toque de recolher
  • obrigar cidadãos a fazerem treinamento militar
  • interromper serviços de transportes
  • suspender permissões para veículos de imprensa
  • deter por tempo indeterminado qualquer suspeito de pertencer a grupos terroristas.

A crise humanitária

Genet Mehari, de apenas 5 anos, recebe tratamento contra desnutrição em Mekele, no Tigré, em setembro de 2021; fome é um problema na região — Foto: AP Photo

Genet Mehari, de apenas 5 anos, recebe tratamento contra desnutrição em Mekele, no Tigré, em setembro de 2021; fome é um problema na região — Foto: AP Photo

É muito difícil ter dados exatos do desastre humanitário que se tornou a Etiópia porque observadores internacionais estão impedidos de entrar em várias partes do país mais atingidas pelo conflito, principalmente no próprio Tigré.

Em julho, funcionários da ONU estimavam que 400 mil pessoas passavam fome na região. O número pode ser ainda maior, com o agravamento da crise nos últimos meses. Já se fala em milhões de famintos no país.

Jovem de 17 anos Haftom Gebretsadik teve a mão direita amputada após um ataque na região do Tigré, em maio de 2021 — Foto: Ben Curtis/Arquivo/AP Photo

Jovem de 17 anos Haftom Gebretsadik teve a mão direita amputada após um ataque na região do Tigré, em maio de 2021 — Foto: Ben Curtis/Arquivo/AP Photo

Também não se sabe o total exato de mortos na guerra. Fontes do Tigré falam em 100 mil, outro número que pode ser muito maior.

Em setembro, um porta-voz da diplomacia dos Estados Unidos disse que o governo etíope bloqueou acesso a serviços básicos como energia elétrica, bancos ou telecomunicação aos moradores do Tigré.

Além disso, há inúmeras acusações de crimes de guerra, dos dois lados: estupros, tortura, execuções têm feito parte da rotina no norte da Etiópia.

Abiy Ahmed: de Nobel da Paz a símbolo de guerra

Abiy Ahmed — Foto: Reuters/Tiksa Negeri

Abiy Ahmed — Foto: Reuters/Tiksa Negeri

A decisão de Abiy Ahmed em invadir o Tigré, começar um conflito contra a TPLF e bloquear o acesso de água e alimentos a toda uma população contrasta com o prêmio Nobel da Paz que ele conquistou em 2019, apenas um ano antes do início da guerra.

O primeiro-ministro ganhou notoriedade por resolver um histórico conflito de fronteira com a vizinha Eritreia — que inclusive faz fronteira com o Tigré. Em 2018, os dois países normalizaram as relações, algo que parecia distante em 20 anos de conflito.

Relembre o anúncio do Nobel da Paz de 2019 no VÍDEO abaixo e saiba mais sobre Abiy

Abiy Ahmed, vencedor do Nobel da Paz, foi decisivo para encerrar conflito com a Eritreia

Abiy Ahmed, vencedor do Nobel da Paz, foi decisivo para encerrar conflito com a Eritreia

Essa mudança na imagem de Abiy Ahmed perante o mundo, na verdade, é o desenrolar de uma rivalidade mais antiga na Etiópia: ao chegar ao poder, em 2018, o primeiro-ministro derrubou com um discurso anticorrupção e pró-direitos humanos a antiga aliança multiétnica que governava o país. A coalizão incluía a TPLF, que então deixou a cúpula do governo etíope.

Era o grupo de Abiy Ahmed e seu partido, o Partido da Prosperidade, que acusavam a milícia do Tigré e outras facções espalhadas pela Etiópia de violarem direitos humanos e praticarem torturas, matanças e outros crimes.

Ou seja, mesmo quando o premiê etíope ganhou o prêmio Nobel da Paz, já havia uma tensão entre os governistas e a TPLF. Pequenos e localizados ataques e outras ações por parte da milícia na região do Tigré — e a resposta por parte dos militares — aumentavam a crise entre ambos os lados.

Até que, finalmente em 2020, a organização de eleições locais em Tigré mesmo com as restrições impostas pelo governo por causa da pandemia e um ataque atribuído à TPFL a uma guarnição militar etíope irritaram Abiy Ahmed. Foi aí, em novembro do ano passado, que ele iniciou a guerra.

O primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed fala durante sessão com parlamentares em Addis Ababa, em foto de arquivo de 22 de outubro — Foto: Tiksa Negeri/Reuters

O primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed fala durante sessão com parlamentares em Addis Ababa, em foto de arquivo de 22 de outubro — Foto: Tiksa Negeri/Reuters

Assim, causa constrangimento na comunidade internacional o fato de que o Nobel da Paz Abiy Ahmed agora é visto como um líder que deu início a um conflito sangrento e que, mais ainda, gerou uma enorme crise humanitária com consequências imprevisíveis para a região e com denúncias de crimes e violações dos direitos humanos.

Causa também espanto o fato de que Abiy Ahmed não quis iniciar diálogos com a oposição no Tigré, mesmo com pedidos insistentes de lideranças mundiais. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que falou pessoalmente com o primeiro-ministro etíope nesta semana.

Nas redes sociais, Abiy Ahmed pediu na terça-feira (2) que os cidadãos etíopes se preparem para "tempos difíceis" e, em sem ser específico, disse que os próximos dias representarão um "teste" para todos no país.

Essa mensagem, menos clara, foi publicada momentos depois de outra, mais contundente, sair do ar por determinação do Facebook: na rede, o primeiro-ministro disse que "todos os etíopes têm a obrigação de morrer pela Etiópia" e que os "terroristas de Tigré" devem ser "enterrados".

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