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Amor que soma: trisais falam sobre relacionamento poliamoroso

Kah beija Carol enquanto Douglas olha
Kah beija Carol enquanto Douglas olha
Foto: Arquivo Pessoal

As videochamadas rotineiras na hora do almoço, as trocas de mensagens incessantes durante o dia e a vontade de ficar perto todas as vezes que se encontravam presencialmente foram os primeiros sinais que despertaram o casal Alcir Trepiche, 43, e Gabriel Aguilar, 33, ambos escreventes de cartório, para construir um relacionamento a três com o analista de departamento pessoal Ednaldo Machado, 35.

Alcir e Gabriel estavam casados desde 2013, mas o match para o início do relacionamento poliamoroso com Ednaldo só aconteceu em 2019. Por meio de um grupo de Whatsapp, o trisal se conheceu e, desde então, não se desgrudou. A primeira barreira, no entanto, não foi o preconceito de boa parte da sociedade, mas a distância física. Enquanto o casal morava em Birigui, no interior de São Paulo, o analista vivia em Florianópolis.  

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“Do dia que a gente se conheceu - vai fazer três anos esse ano - não deu para largar mais, sabe? Foi de julho a setembro só pelo celular e depois conseguimos reservar um hotel para nos conhecer. Passamos três dias conversando. Na hora de ir embora foi uma choradeira. Na despedida, Ednaldo nos convidou para ir morar com ele, em Floripa”, relembra Trepiche.

O trisal Ednaldo, Alcir e Gabriel turistando em Curitiba
O trisal Ednaldo, Alcir e Gabriel turistando em Curitiba
Foto: Arquivo Pessoal

O casal não pensou duas vezes. Lar, trabalho estável, família e ciclo de amigos ficaram para trás. Já são quase três anos formando uma nova família, sim, de três.

“Quando as pessoas se dão conta de nós ficam felizes, querem saber, parece que existe uma admiração positiva. Há, sim, comentários negativos nas redes - por incrível que pareça  de outros homens gays - mas a gente sabe lidar com esse tipo de coisa. Para mim, inclusive, é mais recalque e inveja do que preconceito”, afirma o escrevente de cartório.

A família poliamorosa de Alcir, Gabriel e Ednaldo tem no youtube e instagram o perfil “Vida de Trisal” que reúne cerca de 40 mil seguidores juntando as duas contas. A presença nas redes sociais, para eles, pode contribuir para o combate à intolerância contra as novas formas de se relacionar. 

 

“Queremos ser referência para as pessoas que querem viver o poliamor. Hoje a gente é um todo. O casal Gabriel e Alcir terminou em um momento para nascer um outro relacionamento: Gabriel, Alcir e Ednaldo. Nos sentimos completos e estamos e somos felizes. O importante é amar, não importa a forma que o nosso amor se expressa”, destaca.

Eu, tu e ela

Se o ditado diz que afeto nunca é demais, Henrique, que deve chegar ao mundo nos próximos dias, é a representação da fartura no amor. O pequeno terá uma família robusta, mas com o mesmo zelo e carinho, garantem as mães Maria Carolina Rizola (30) e Klayse Marques (34) e o pai Douglas Queiroz. Como em qualquer lar à espera de um novo membro, idas ao médico para acompanhar o desenvolvimento do filho, escolha do nome e das cores do enxoval, book da gestante estão fazendo parte da rotina do três nos últimos meses.

Trisal em book de Carol, que aguarda a chegada de Henrique
Trisal em book de Carol, que aguarda a chegada de Henrique
Foto: Arquivo Pessoal

O relacionamento poliamoroso começou em um aplicativo de relacionamentos. Carol, que está gestando a criança, já estava casada com Douglas, quando o casal resolveu criar uma conta no app para ter novas experiências. Um encontro foi marcado, as conversas sobre os mais variados tipos de assunto foram surgindo e o laço afetivo, criado. 

“Cada família reagiu de uma maneira diferente. A da Kah foi muito receptiva, pois para eles o que importa é se somos felizes nas nossas decisões. A do Douglas, a princípio, não concordou mas respeitou, porém com a exposição ficaram chateados por conta dos comentários dos amigos. A minha não aceitou e decidiu cortar relações, mesmo estando no momento mais importante da vida”, relembra Carolina.

 

 

 
 
 
 
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Para Rizola, muitas pessoas têm medo de vivenciar o poliamor e acabam negando seus próprios sentimentos e desejos com receio do julgamento da sociedade.

“Às vezes, vivemos muito a vida que os outros querem para a gente e deixamos de viver muitas possibilidades diferentes.Por incrível que pareça, é mais fácil conviver a três do que num relacionamento tradicional, pois dificilmente numa discussão nenhum dos três concorda com algo, cabendo sempre ao terceiro a posição de mediador de um conflito. Dificilmente dormimos brigados uns com os outros pois nesse tipo de relação a conversa é fundamental e, portanto, é mais fácil solucionar os conflitos do dia a dia. Se te faz feliz, por quê não?”, reflete Carol.

Não-monogamia

A psicóloga e especialista em Saúde Pública, Thaís Ventura, 36, que atua com psicoterapia para a população LGBTQI+ e vive em um relacionamento poliamoroso, explica as possibilidades desse tipo de relacionamento.

“O poliamor entra dentro do guarda-chuva da não monogamia, que é qualquer estrutura de relações que não seja definida por exclusividade amorosa e sexual a uma única pessoa. Nele, as pessoas possuem relacionamento afetivo e sexual em igualdade entre mais de duas pessoas. O relacionamento pode ser aberto ou fechado e as regras são estabelecidas entre os membros. Existem alguns formatos de relacionamento poliamoroso, por exemplo: em V, onde as pessoas A e C se relacionam com B, mas não se relacionam entre si. Ou em triângulo, onde todas as pessoas (A, B e C) se relacionam de forma igualitária”, ressalta a profissional.

Ventura faz parte da Associação Brasileira de Família Homotransafetivas e comenta quais são as principais lutas e bandeiras da entidade.  “A ABRAFH surge da necessidade de buscar pelo direito de reconhecimento social e proteção das famílias. A luta da associação é pela visibilidade positiva das famílias e sua principal pauta é proteger e zelar pelos interesses, direitos e bem-estar das famílias LGBTI+ brasileiras. Qualquer família que tenha uma pessoa LGBTI+ é uma família que se enquadra nesse formato. No passado, relacionamentos poliafetivos já tiveram registro civil e foram reconhecidos por lei. Atualmente, alguns foram desfeitos e já não é mais possível reconhecimento legal dessas uniões. Alguns trisais também têm tido muita dificuldade em registrar seus filhos, então a luta é para além do que as pessoas entendem pela formação de trisais como algo ligado a promiscuidade ou sexualidade exacerbada”, comenta a psicóloga que possui o perfil no instagram @familiaspoliafetivas. 


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