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'Ação cujo foco é a intervenção policial é pouco efetiva na Cracolândia', aponta especialista

Para Marcelo Batista Nery, pesquisador e coordenador da transferência de tecnologia do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, é fundamental que o poder público tenha compreensão do grupo que está na Cracolândia e a compreensão do lugar em si. Em mais uma operação contra o tráfico de drogas, 20 pessoas foram detidas na madrugada desta quarta-feira, 11, no centro de São Paulo. O foco foi a Praça Princesa Isabel, para onde traficantes e dependentes químicos migraram em março. Entre os detidos, 15 foram levados à delegacia e liberados na sequência por falta de provas, enquanto cinco permaneceram presos (três em flagrante e dois por terem mandados de prisão).

"Existem várias São Paulos na cidade de São Paulo. Cada uma delas pode ser diferenciada por suas características. Não é à toa que a Cracolândia está localizada na região central. Isso porque tem atividade econômica, população flutuante, tem estrutura antiga e cortiços. Então, tem um conjunto de elementos que fazem com que essa população se localize exatamente naquele ponto da capital", disse ao Estadão.

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Nery destaca ainda a importância de trabalhos sociais na área. "Política pública voltada à Cracolândia não pode ser pensada como uma ação apenas de polícia. É muito mais amplo do que isso."

Essa forma de combater a questão da Cracolândia, com o uso de força policial em primeiro plano, tem se tornado uma tendência nos últimos anos?

Nas últimas décadas, pensando em política pública no âmbito estadual, e pensando que o Estado é responsável pela ação policial, nessas últimas décadas a tendência tem sido muito mais a intervenção policial do que a prevenção. Tem sido muito mais o enfrentamento do que a conciliação. A questão da Cracolândia, em um primeiro plano, requer uma ação em nível municipal, mas, quanto mais próxima é a ação da Prefeitura à ação do Estado, mais ela seguirá a tendência que tem sido observada nas últimas décadas no governo do Estado que é essa ação de intervenção, mais do que de prevenção, de conflito, mais do que de conciliação.

Essa visão mais próxima entre Estado e Prefeitura está ocorrendo agora? Como avalia a ação de hoje?

Uma ação cujo foco é a intervenção policial é muito pouco efetiva para a solução do problema, com a chance de agravá-lo. Quando eu falo que é uma questão de polícia também, mas não pode ser apenas uma questão de polícia e esse não pode ser o foco, eu estou dizendo que tem que ter uma ação policial, mas somada a uma intervenção urbana, de assistência social, de saúde pública. Se você não articula uma ação no sentido mais amplo, a política pública é muito pouco efetiva. Se ela é muito pouco efetiva, a chance do problema ser minimizado ou resolvido é muito pequena, com a chance dele ser agravado.

Como ele poderia ser agravado?

Uma é com o maior conflito entre aquela população, o poder público e a população que reside, ou que transita, pelo lugar e também está envolvida nesse contexto. Além do conflito poder ser maior, o que pode acontecer é a migração para outro local. E aí há um espalhamento do problema, o que torna ele ainda mais difícil de ser resolvido. Pensando na perspectiva da gestão pública e de uma política pública, o que posso dizer é que, da maneira como a ação pública se deu, ela é muito pouco eficiente. É um gasto de dinheiro público de maneira ineficiente.

Recentemente, já houve a migração da Cracolândia para um novo local, a Praça Princesa Isabel, que foi o centro da ação de hoje. Uma sequência de migrações do chamado "fluxo" pode aumentar a tensão no local quando novas operações ocorrerem?

Sim. E tem um agravante: por um lado, a gente está em um contexto de pandemia, estamos voltando lentamente ao normal, ocupando os espaços públicos. Por outro, a pandemia em si e a condição econômica do País no momento têm aumentado a pobreza e a desigualdade social. Então, no mesmo momento que o movimento de intervenção sem prevenção, e mais pensando em conflito do que na mediação, você observa que a pobreza e a desigualdade social estão aumentando - e isso tende ao aumento daquela população -- você primeiro vê esse cenário como um cenário grave.

Quando você pensa que um cenário semelhante já aconteceu, onde houve uma intervenção e a migração daquele grupo para um outro lugar, você pensa: por que isso não vai acontecer novamente? Como existem várias São Paulos em São Paulo, se você retira a população de um certo lugar, e ela está lá porque aquele lugar tem certa característica, ela vai migrar para um lugar onde ela observa que as condições são semelhantes àquele cenário original. Só que a cidade é uma cidade dinâmica.

Levantamento recente feito pelo Estadão aponta que, com a retomada econômica, por conta da melhora da pandemia, os roubos estão aumentando principalmente na área central da cidade, além de bairros nobres. Fazer ações policiais na Cracolândia e em locais próximos sem se pensar em políticas complementares pode agravar a violência no centro da cidade?

A região central de São Paulo sempre foi bastante problemática com relação a roubos e furtos, tanto de transeuntes como de estabelecimentos comerciais. A questão é que houve a pandemia e agora está havendo uma reabertura, uma volta da ocupação do espaço público, e a gente pensava que a tendência era voltar aos níveis de antes da pandemia. Só que, devido ao agravamento do cenário, a percepção é que pode haver o agravamento dessa questão, do aumento de roubo contra o patrimônio, do tráfico de entorpecentes, dos conflitos em espaço público.

Um dos objetivos da ação foi remover as barracas, porque a polícia acredita que elas são uma espécie de esconderijo para o tráfico de drogas. Quais os efeitos práticos dessa medida a longo prazo?

Sempre há uma ideia de que a zeladoria contribui com a segurança. Então, se eu tenho um lugar limpo, iluminado e policiado, a tendência é que essa presença do poder público aumente a segurança do lugar. Só que isso tem que ser algo contínuo. Se isso é feito pontualmente e depois o poder público desaparece, não funciona. Se não for contínuo e não for articulado com outras ações, torna-se uma ação pontual que vai ter um resultado pontual e de curto prazo, e pouco efetivo, com tendência de piora em um segundo momento.

Pelo que foi divulgado até agora, a Guarda Metropolitana prevê manter equipes no local para evitar que a situação piore novamente. Como analisa isso e quais outras medidas poderiam ser tomadas de forma complementar?

A presença da Guarda ou da Polícia Militar também tem que ser vista da perspectiva da migração dessas pessoas para outros lugares. Não é só uma questão de fazer uma intervenção no lugar, mas pensar no impacto e na consequência daquela ação. Com relação a medidas auxiliares, a perspetiva é mais de uma segurança cidadã, do que uma segurança pública. Ela é uma segurança pública, entre aspas, que tem maior proximidade entre poder público e a sociedade. Um poder público que conhece o grupo social afetado, as características do lugar, faz ações de prevenção e se articula com assistência social, com políticas públicas educacionais, políticas públicas de intervenção urbana. Se essas ações públicas forem articuladas, a chance de sucesso é muito maior do que uma intervenção pontual que vai afastar aquele grupo daquele lugar especificamente. Simplesmente o que vai acontecer é que o problema que estava localizado em um ponto vai migrar para outro ou até vai se espalhar por regiões que têm características semelhantes.

Há regiões com potencial para que uma nova migração ocorra?

Em geral, regiões centrais com uma ocupação urbana antiga. Ou seja, com uma infraestrutura urbana antiga, que existam cortiços ou uma deterioração urbana. Locais onde exista atividade econômica, população flutuante, o que facilita a mendicância. Lugares que são mais de atividade econômica do que residenciais. Porque em áreas residenciais os moradores locais podem mais rapidamente solicitar ao poder público a ação contra aquele grupo. São lugares mais ou menos com essas características.


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