Carregando...

Obra musical de Carolina Maria de Jesus vem à tona em exposição sobre a escritora

♪ Revelada em escala mundial como escritora, a partir da publicação em 1960 do livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada, best-seller já traduzido e publicado em cerca de 40 países, a mineira Carolina Maria de Jesus (14 de março de 1914 – 13 de fevereiro de 1977) deixou também obra musical quando morreu na cidade de São Paulo (SP), a um mês de completar 63 anos, vítima de insuficiência respiratória.

Pouco conhecida, embora disponível para audição na internet, a obra musical da cantora e compositora está perpetuada em álbum lançado pela gravadora RCA-Victor em 1961, há 60 anos, no embalo do sucesso do livro Quarto de despejo.

Batizado com o nome do livro, o álbum Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus cantando suas composições é um dos temas da exposição sobre a artista que o Instituto Moreira Salles abre em 25 de setembro, ocupando o oitavo e o nono andares do prédio do IMS na cidade de São Paulo (SP), com obras também exibidas no quinto andar e no térreo.

Intitulada Carolina Maria de Jesus – Um Brasil para os brasileiros, a mostra tem curadoria do antropólogo Hélio Menezes e da historiadora Raquel Barreto, entrelaçando diversas linguagens para dimensionar o legado dessa escritora que também se revelou compositora. Uma artista que, além de fazer músicas, cantava e tocava violão.

Um dos 15 núcleos temáticos da exposição, a obra musical de Carolina Maria de Jesus poderá ser ouvida no nono andar do prédio do IMS paulista. O público também poderá ver uma das raras cópias do LP Quarto de despejo, oriunda da coleção do pesquisador musical José Ramos Tinhorão (1928 – 2001) e sob a guarda do Instituto Moreira Salles.

Capa do álbum 'Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus cantando suas composições', lançado em 1961 — Foto: Reprodução da cópia do LP da coleção de José Ramos Tinhorão / Acervo Instituto Moreira Salles

Capa do álbum 'Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus cantando suas composições', lançado em 1961 — Foto: Reprodução da cópia do LP da coleção de José Ramos Tinhorão / Acervo Instituto Moreira Salles

Indisponível nos aplicativos de música, o disco nunca foi reeditado em CD. No álbum, cuja capa expõe foto em que Carolina Maria de Jesus é vista à frente de barraco da favela, a artista versa sobre o duro cotidiano da população residente na comunidade do Canindé, favela já extinta – situada na zona norte da cidade São Paulo (SP) – onde a futura escritora se instalara em 1947, sobrevivendo como catadora de papel.

Com voz rústica, a cantora transita por sambas (Vedete da favela e O malandro) e marchas (Pinguço e Rá ré ri ró rua) em tom geralmente expansivo.

A marcha Rá ré ri ró rua abre o disco como retrato de pioneiro empoderamento feminino, raro na música e na sociedade patriarcal da época, sobretudo por se tratar do grito de liberdade de mulher pobre, negra e residente em zona periférica que expulsa o marido de casa.

Já os versos da marcha Pinguço e do partido alto O malandro, por exemplo, antecipam em duas décadas a verve das crônicas de costumes que seriam feitas em sambas com as assinaturas de Bezerra da Silva ((1927 – 2005) e da geração pagodeira revelada na quadra do Cacique de Ramos ao longo dos anos 1980, com Zeca Pagodinho à frente do time.

Pinguço perfila o fictício (?) alcoólatra Seu José, o que “... chega em casa, não compra nada e quer comer / Bate na mulher, põe os filhos pra correr”, abordando dissonância conjugal ainda frequente em muitos lares do Brasil.

Entre denúncias sociais feitas com algum humor, há também espaço no disco para a melancolia, mote de O pobre e o rico, canção de protesto, quase fúnebre, em que a autora versa sobre injustiças ao perfilar comportamentos de distintas classes sociais. “É triste a condição do pobre na terra / Rico quer guerra, pobre vai na guerra”, aponta a compositora, no mesmo tom direto do livro que lhe dera fama.

A mazela do pobre também é tema de Moamba, música escrita na primeira pessoa (“Olha eu sofro tanto / Dura é a minha provação / Todos comem carne / Eu como só arroz e feijão”) e gravada com alternância de ritmos entre o tom esfuziante de samba ruralista e o lamento sertanejo.

Tal como livro Quarto de despejo, o primeiro e único álbum de Carolina Maria de Jesus expõe compositora com visão crítica do meio social em que vive, consciente tanto das injustiças quanto da força da mulher, exaltada nos versos de Vedete da favela, samba regravado pela cantora Virgínia Rodrigues no recente álbum Cada voz é uma mulher (2019).

Com músicas como Macumba, Quem assim me ver cantando e Simplício, o álbum Quarto de despejo– Carolina Maria de Jesus cantando suas composições merece ser ouvido 60 anos após o lançamento do LP por reforçar a assinatura dessa autora de escrita direta que disse muito sobre um Brasil de 1961 que ainda reverbera no Brasil de 2021.


Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados*