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Supervia já paralisou 862 viagens por furto de cabos em 2021; entenda o problema

Supervia volta a interromper ramal Japeri; é a terceira paralisação em 24 horas (Imagem de arquivo) — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Supervia volta a interromper ramal Japeri; é a terceira paralisação em 24 horas (Imagem de arquivo) — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Os passageiros da Supervia – concessionária do sistema ferroviário do Rio de Janeiro – passaram a conviver com constantes interrupções na circulação dos trens no estado. Só nos últimos dois dias, a empresa precisou suspender a operação em três oportunidades.

São 862 viagens suspensas, apenas entre janeiro e julho deste ano. O motivo para as interrupções é sempre o mesmo: O furto de cabos e equipamentos.

Em cada paralisação, os passageiros ficam sem o transporte e demoram mais no trajeto entre a casa e o trabalho.

Só nos primeiros seis meses de 2021, a Supervia informou que deixou de transportar mais de 2 milhões de passageiros por conta das viagens canceladas ou interrompidas no caminho em função de furtos de cabos.

Números da crise:

  • 862 viagens suspensas em seis meses;
  • 2 milhões de passageiros prejudicados;
  • 335 furtos de cabos de sinalização e energia, em 2020;
  • em 2021, os furtos se repetiram 364 vezes;
  • mais de R$ 1 milhão gasto com a compra de material para substituição dos equipamentos;
  • apenas 137 funcionários de segurança, o que significa que a empresa conta com apenas um trabalhador dessa área por estação;
  • um policial militar para patrulhar uma estação e meia e cerca de 4 quilômetros de linha férrea
  • Supervia acumula uma dívida de cerca de R$ 1,2 bilhão.

Em 2020, foram 335 furtos de cabos de sinalização e energia. Já neste ano, os furtos se repetiram 364 vezes, totalizando mais de 24 mil metros de cabos retirados indevidamente do sistema no primeiro semestre.

Segundo a concessionária, desde o início do ano, já foi gasto mais de R$ 1 milhão só com a compra de material para substituição dos equipamentos.

3h de interrupção

Na terça-feira (31), a circulação dos trens do ramal Japeri e da extensão Paracambi foi paralisada por 3 horas.

Supervia volta a interromper ramal Japeri; é a terceira paralisação em 24 horas

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De acordo com a concessionária, houve novos furtos de cabos que prejudicam o funcionamento das composições – desta vez, foram mais de 200 metros de cabos de sinalização nas regiões de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense.

"Todo dia é a mesma coisa, a gente chega cansado aqui e as mesmas coisas que falam. Foi cabo, entendeu, porque roubaram cabo, mas impossível todo dia roubar cabo, gente. Ta um absurdo isso", comentou uma passageira.

A empresa também comunicou que houve mais episódios de vandalismo contra equipamentos que auxiliam no sistema de sinalização em Edson Passos.

Essa é a é a terceira paralisação na circulação dos trens do Rio de Janeiro em menos de 24 horas. No início da manhã desta terça, passageiros enfrentaram atrasos pelo mesmo problema.

Segundo a concessionária, o transporte também vem enfrentando a consequência do arrombamento de instalações e furto de materiais na região de Nova Iguaçu, que aconteceram na segunda-feira (30).

Supervia em recuperação judicial

Em junho, a Justiça do Rio aceitou o pedido de recuperação judicial da Supervia. A concessionária afirma que perdeu a metade dos passageiros durante a pandemia e acumula uma dívida de cerca de R$ 1,2 bilhão.

Supervia entra com pedido de recuperação judicial

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Nos últimos anos, a Supervia demitiu 1/3 de seus funcionários. De acordo com uma apuração do RJ2, em 2019, eram cerca de 3,5 mil trabalhadores na empresa. Atualmente, o número gira em torno de 2,4 mil.

Agentes, técnicos, ajudantes e gerentes foram cortados de seus cargos. Com menos gente, o ritmo dos serviços diminuiu e o tempo para solução dos problemas aumentou.

Menos seguranças e mais furtos

Entre as demissões na Supervia, estão os seguranças. O número de trabalhadores responsáveis pela fiscalização das linhas caiu para 137 funcionários, o que significa que a empresa conta com apenas um trabalhador dessa área por estação.

O grande desafio da concessionária atualmente é evitar os furtos de cabos e equipamentos que provocam as interrupções na circulação dos trens. Para isso, a empresa diz que conta com o apoio das polícias Militar e Civil.

A empresa afirma que está aprimorando a área de segurança e ampliando ações de inteligência. No entanto, segundo a concessionária, o problema de furtos de cabos envolve quadrilhas e um esquema que precisa ser combatido por forças policiais, equipadas para esse enfrentamento.

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Segundo a Supervia, o patrulhamento das estações e das linhas férreas é de responsabilidade do Grupamento de Policiamento Ferroviário da Polícia Militar.

Ainda de acordo com a empresa, para mostrar a gravidade da situação, em apenas uma semana, duas equipes da concessionária que atuavam na reparação dos cabos foram assaltadas.

A TV Globo teve acesso a um documento interno da PM que mostra o efetivo do grupamento. Em maio, 97 policiais trabalhavam no patrulhamento das estações e das linhas férreas.

  • 97 policiais
  • 5 oficiais e 92 praças
  • 17 PMs afastados
  • 14 em trabalho administrativo
  • apenas 66 policiais nas ruas

Ao todo, o sistema conta com 103 estações e 270 quilômetros de linha férrea.

De acordo com os números da PM, cada policial teria que patrulhar uma estação e meia e cerca de 4 quilômetros de linha férrea. E não entra nessa conta, as folgas, turnos e escalas dos agentes de segurança.

Em 2021, 54 pessoas foram presas em situação de furto ou vandalismo nas linhas da Supervia. Em média, são seis pessoas presas por mês, menos de duas por semana.

De acordo com a Polícia Militar, esses crimes precisam de investigação para que os envolvidos sejam identificados e presos, principalmente os receptadores dos cabos e placas furtadas.

Sendo assim, a responsabilidade da investigação deveria ser da Polícia Civil. O órgão de segurança pública informou que existe um inquérito em curso sobre receptadores dos produtos roubados.

Segundo os agentes, uma última operação da Polícia Civil prendeu donos de ferro-velho, empresários de recicladores e de indústrias que compram material reciclado da organização criminosa.

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Na tarde da última terça, uma reunião no Palácio Guanabara, sede do executivo estadual, mobilizou representantes das secretarias de transporte, das polícias Civil e Militar, além de diretores da Supervia para discutir uma nova estratégia de segurança ostensiva para o setor.

Órgãos de fiscalização

Sempre que um furto de cabo ou equipamento causa a interrupção da circulação de trens no Rio, a Supervia deveria notificar a Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro (Agetransp).

O RJ2 teve acesso a documentos da agência, que registram 62 casos de furto de cabo até o último dia 24 que impactam na circulação dos trens.

São 62 registros de furtos na Agetransp, diante de 364 vezes que a concessionária afirmou ter sofrido com o problema.

Já a Comissão de Transporte Público da Alerj, presidida pelo deputado Dionísio Lins (PP), que também deveria fiscalizar e cobrar as autoridades pela efetividade do serviço, realizou apenas uma reunião durante o ano de 2021.

Esse único encontro ocorreu para a definição de quem seria o presidente e o vice do colegiado.

Secretário nas redes

Desde o último mês de junho a Secretaria Estadual de Transporte é comandada pelo deputado federal Juninho do Pneu (Democratas).

De acordo com um levantamento feito pela TV Globo, o secretário é bastante atuante em suas redes sociais, mas quase sempre trata de outros assuntos, deixando de lado o transporte público.

Na terça, enquanto milhares de passageiros se atrasavam para o trabalho devido aos problemas na Supervia, o secretário postava uma foto do amanhecer em um bairro de Nova Iguaçu.

A situação se repetiu na segunda-feira (30), quando Juninho do Pneu compartilhou elogios ao governador Cláudio Castro no exato momento em que os trens paralisavam sua circulação mais uma vez.

Ao longo do dia, enquanto os passageiros da Supervia enfrentavam problemas no transporte, Juninho lembrou de celebrar o Dia do Nutricionista.

Entre as postagens, estão fotos sobre um curso de cabelereira, um festival de inverno em Nova Iguaçu e homenagens aos psicólogos e aos atletas brasileiros que conquistaram medalhas nas Olimpíadas de Tóquio.


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