Carregando...

Peritos explicam por que ferimentos de mortos a tiros podem ser confundidos com facadas; laudos descartam uso de facas no Complexo do Salgueiro

Corpos achados pelos os moradores, do Complexo do Salgueiro, do confrontro de sábado, nesta segunda-feira (22). — Foto: MARCOS PORTO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Corpos achados pelos os moradores, do Complexo do Salgueiro, do confrontro de sábado, nesta segunda-feira (22). — Foto: MARCOS PORTO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Dor e revolta. Esses eram alguns dos sentimentos dos familiares dos mortos do Complexo do Salgueiro na segunda-feira (22), ao sair do IML, após a identificação dos corpos de seus parentes. Muitos alegavam marcas de facadas e outros sinais que poderiam indicar tortura.

No entanto, na quarta-feira (24), a Polícia Civil divulgou os laudos das nove necropsias e nenhum deles indicava ferimentos feitos à faca.

  • Moradores do Salgueiro dizem que corpos de mortos têm marcas de tortura

Denúncia parecida aconteceu na época da operação da Favela do Jacarezinho, na Zona no Rio, em maio desse ano, e que também foi descartada após a divulgação dos laudos oficiais daquela ação.

O g1 conversou com dois peritos para entender se é possível que um ferimento à bala ganhe aspecto de corte e cause esse tipo de confusão.

“É possível, sim. As pessoas estão acostumadas ao ferimento de bala com o aspecto redondo, um furo que indica a entrada do projétil. Mas se ele passar de raspão, for de uma arma de baixa precisão ou se ricochetear em algo, vai produzir uma ferida tangencial, que lembra um corte e que pode causar esse tipo de confusão em um leigo. Mas um legista vai identificar na hora que se trata de um tiro com essas condições”, explicou o perito criminal Ricardo Molina, que também é professor da Unicamp.

O perito Ricardo Molina explica como ferimento por arma de fogo podem se parecer com um corte — Foto: Reprodução/EPTV

O perito Ricardo Molina explica como ferimento por arma de fogo podem se parecer com um corte — Foto: Reprodução/EPTV

Molina lembrou ainda que o mesmo efeito de corte pode acontecer se houver quebra do projétil. O fragmento da bala entraria no corpo produzindo um ferimento com aspecto diferente do furo da bala.

Perito que trabalhou nos corpos do Jacarezinho explica

Um outro especialista, que trabalhou na perícia dos corpos da operação do Jacarezinho e que pediu para não ser identificado, endossa a possibilidade.

Segundo ele, principalmente nos casos de tiros de fuzil, que é uma arma de longa distância, a munição pode perder o seu eixo de precisão a partir de um determinado ponto e girar de modo inclinado entrando no corpo assim e provocando um aspecto de corte em vez do costumeiro furo.

“Uma outra possibilidade dessa situação acontecer é quando o tiro atinge um osso, ele se parte e se transforma no que chamamos de ‘projétil acessório’, que também pode promover cortes de forma secundária. Tudo isso pode causar a sensação de corte feito com faca para um leigo”, explica o perito.

Perguntado se esse tipo de ferimento poderia confundir um legista, ele diz que não e afirma que um profissional consegue distinguir um ferimento semelhante a um corte feito por uma arma de fogo e um real feito à faca.

“O corte por faca ou qualquer outro objeto cortante gera o que chamamos de ferida em botoeira, que lembra uma casa de botão. Ela vai ter dois lados e ainda vamos conseguir distinguir se o objeto que a produziu tinha um fio de corte ou dois. Não dá para confundir”, enfatiza.

  • Complexo do Salgueiro: saiba quem os nove mortos e o que dizem famílias e polícia

Veja quem são os nove mortos em confronto no Salgueiro — Foto: Reprodução

Veja quem são os nove mortos em confronto no Salgueiro — Foto: Reprodução

Veja como as necropsias explicam algumas denúncias

(As descrições abaixo podem incomodar pessoas mais sensíveis)

Denúncia:
“Tem gente que não tem como reconhecer porque está com o rosto desfigurado por faca. Fui orientado no IML a fazer o reconhecimento do tórax para baixo devido às más condições do rosto” - familiar que não quis se identificar

O que diz a necropsia:
O laudo de Rafael Menezes Alves: mostra escoriação na pálpebra superior do olho esquerdo, tiro com entrada na região auricular direita e saída na bochecha esquerda.

O laudo de Carlos Eduardo Curado de Almeida mostra tiro com entrada na região auricular direita e tiro na região temporal (cabeça) esquerda, e fraturas na cabeça nos ossos parietais e occipital (base da cabeça).

O laudo de Jhonata Klando Pacheco Sodré mostra tiro na cabeça, com entrada na região parietal direita e saída na occipital.

O laudo de Ítalo George Barbosa de Souza Gouvêa Rossi mostra tiro com entrada na base do crânio e saída na face esquerda.

O laudo de David Wilson Oliveira mostra que o olho direito foi transfixado por passagem de projétil de arma de fogo, tiro na cabeça na região occipital à direita (base da cabeça), tiro no lábio superior com destruição parcial do assoalho da boca.

O laudo de Igor da Costa Coutinho mostra face está destruída por tiro com entrada na cabeça e saída no rosto.

Denúncia:
Mãe de Kauã Brenner Gonçalves Miranda, Amanda Gonçalves, prestou depoimento na Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, e afirmou que o filho teve um dedo da mão cortado.

O que diz a necropsia:
O laudo não faz nenhuma menção a falta de dedos no corpo.

Denúncia:
A irmã de Rafael Menezes Alves, Milena Menezes, denunciou sinais de tortura no corpo do irmão com marcas de tiro no tórax, na perna e uma perfuração por faca no glúteo.

O que diz a necropsia:
O laudo mostra um tiro nas costas na parte esquerda com saída no dorso, tiro no braço direito e um projétil incrustado na região glútea esquerda; o períneo e a bolsa escrotal foram lacerados por passagem de projétil de arma de fogo.

Denúncia:
"Pegaram eles vivos, mataram na facada. Todos estão sem a parte genital, fora quem está sem olho, sem perna, sem braço”, disse a esposa de Jhonata Klando Pacheco Sodré, que não quis se identificar.

O que diz a necropsia:
O laudo de Jhonata Klando Pacheco mostra a presença de cinco tiros: um na cabeça, outro no lado direito das costas, um na região ilíaca direita, um na coxa direita e um na parte superior da coxa esquerda. Corpo teve ainda um projétil incrustado na região glútea esquerda; períneo e bolsa escrotal foram lacerados por tiro.

O laudo de Rafael Menezes Alves também mostra projétil incrustado na região glútea esquerda com períneo e bolsa escrotal lacerados por passagem de projétil de arma de fogo.

Denúncia:
“Eles degolaram o meu irmão”, disse Cleonice da Silva Araújo, irmã de Élio Da Silva Araújo.

O que diz a necropsia:
Três tiros na região dorsal, sendo um próximo à base do pescoço, outro na subescapular esquerda e um terceiro na subescapular direita, que guardam relação de trajetória com três feridas amplas, com características de saídas de projetil de alta energia. Presença de duas feridas compatíveis com raspão de tiro na região bucinadora esquerda (bochecha) e uma na região peitoral direita.

Corpos achados pelos os moradores, do Complexo do Salgueiro, do confontro de sábado, nesta segunda-feira (22). — Foto: MARCOS PORTO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Corpos achados pelos os moradores, do Complexo do Salgueiro, do confontro de sábado, nesta segunda-feira (22). — Foto: MARCOS PORTO/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO


Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados*