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Fome no Rio: Dona Janete, que chorou e emocionou repórter ao vivo, luta para alimentar 4 netos com R$ 500 por mês

Janete Evaristo se emociona ao relatar não ter o que comer — Foto: Reprodução/TV Globo

Janete Evaristo se emociona ao relatar não ter o que comer — Foto: Reprodução/TV Globo

Quinhentos reais é tudo o que Janete Evaristo, de 57 anos, tem por mês para (sobre)viver e cuidar dos quatro netos. Todos moram no Morro dos Macacos, favela em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio.

Na edição do RJ1 de terça-feira (21), Dona Janete, como é conhecida, emocionou a repórter Lívia Torrese espectadores ao relatar a luta que tem travado contra a fome.

"Domingo (19) a gente não tinha nada para comer. Eu estou desempregada, está muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá", desabafou Janete enquanto esperava por uma refeição na fila do programa da prefeitura Prato Feito Carioca, que distribui alimentos a quem tem fome.

As lágrimas de Janete eram de desespero. Ao g1, ainda na terça, a mulher deu mais detalhes da situação pela qual ela e os netos passaram no último fim de semana.

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"Muito difícil mesmo. No domingo não tinha nada. Sabe nada? E eu entrei em desespero. Porque no sábado [os netos] já não tinham comido. Aí, no domingo, não tinha nada pra dar. Aí, eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer", contou.

Dona Janete lembra de momentos difíceis causados pela fome

Dona Janete lembra de momentos difíceis causados pela fome

A saída que Janete encontrou foi vender latinhas para, só à noite, conseguir colocar comida na mesa.

"Eu vendi umas latinhas e consegui 15 reais. E fui pedir a uma amiga pra ver se ela tinha algumas coisas pra me emprestar, que depois eu dava a ela… Foi aí que eu consegui, seis horas da noite, fazer um arroz e feijão pra eles comer (sic)", disse.

Acidente com álcool

A filha de Janete, que sofria com uma doença que ataca a imunidade, morreu há dois anos. E há seis meses, ela ficou viúva. Sem o marido e a filha, a batalha para sustentar os netos beira o impossível.

As dificuldades são muitas, começando pela renda que foi praticamente toda embora com a pandemia e corrosão da economia.

Janete chegou a cuidar de 23 crianças na favela enquanto as mães saíam para trabalhar. Atualmente, só está "olhando" uma criança, o que rende a ela R$ 100 por mês.

O que é insegurança alimentar

O que é insegurança alimentar

Os outros R$ 400 que recebe são, nas palavras dela, do "Bolsa Brasil". Janete uniu os nomes do extinto "Bolsa Família" com o "Auxílio Brasil", programa do governo federal que começou pagar R$ 400 a famílias em extrema pobreza no fim de 2021.

E mesmo que a casa que more com netos seja própria, os R$ 500 não dão para quase nada. Em abril, por exemplo, Janete não conseguiu comprar um botijão de gás e fazia comida queimando álcool em latinhas. Em abril, o único (e último) recurso dela resultou num acidente com o neto.

"Foi em abril que ele se queimou. Eu perguntei se ele queria comer. Ele falou: 'não vó, não quero'. Aí, fui eu e a irmã dele na rua. Quando eu tava chegando na rua, o meu vizinho veio correndo porque ele estava todo queimado", contou Janete.

O neto de 11 anos usou uma latinha de cerveja aberta para colocar o álcool, que virou na criança quando ela ateou fogo ao líquido.

"Quando colocou [fogo], virou em cima dele e queimou ele todo. A perna dele ficou com uma marca feia, porque foi muito forte. Barriga, mãos… Tudo porque eu não tinha dinheiro pra comprar o gás. Só o álcool. E eu fazia comida com aquilo", se culpa a mulher.

O neto ficou mais de um mês internado. Dia sim, dia não, segundo Janete, ele precisava fazer curativos. Foi mais um gasto que a mulher disse não ter como arcar. Fora a passagem para ir ao hospital. Ela contou com a ajuda de um taxista que levava o menino na unidade de saúde.

Família emagrece de fome

Quem também estava no Prato Feito Carioca na terça era Priciane Alexandre, de 30 anos, que também mora no Morro dos Macacos e é mãe de duas meninas. Ela conta que a pandemia piorou a situação da família ao ponto de todos chegarem a emagrecer.

Priciane Alexandre disse que família chegou a emagrecer por não ter o que comer — Foto: Cristina Boeckel/g1 Rio

Priciane Alexandre disse que família chegou a emagrecer por não ter o que comer — Foto: Cristina Boeckel/g1 Rio

“O coração cortava. Eu ficava nervosa, estressada por saber que estava chegando a hora de não ter comida”, contou.

Há um mês Prisciane perdeu a avó, que cuidava do irmão com necessidades especiais, e então ela assumiu os cuidados do rapaz.

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Prato Feito Carioca

A Prefeitura do Rio abriu na terça as duas primeiras cozinhas populares do Prato Feito Carioca, na Mangueira e no Renascença Clube. O projeto tem como objetivo reduzir a insegurança alimentar de pessoas em situação de vulnerabilidade social na capital fluminense.

“É um grande drama que Brasil parecia que tinha superado, mas estamos voltando a enfrentar. A ideia é levar a comida feita para perto das casas. Vamos garantir para as pessoas com vulnerabilidade social no Rio”, disse o prefeito Eduardo Paes (PSD) sobre o projeto.

As cozinhas comunitárias que fazem parte do projeto serão distribuídas por vários pontos da cidade, em que os indivíduos e famílias previamente cadastrados terão acesso a uma refeição diária gratuitamente.

A previsão da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) é que, entre a próxima quinta (23) e o dia 2 de julho, mais 13 cozinhas comunitárias abram as portas. A ideia é que, em um ano, 55 cozinhas sejam implementadas.

O público que terá direito a receber as refeições preparadas pelas cozinhas foi selecionado entre as famílias em situação de vulnerabilidade atendidas pelos 47 Centros de Referência de Assistência Social (Cras) do Rio.

Quem for selecionado poderá pegar as refeições nas cozinhas mais próximas ao local onde vivem.

Além das cozinhas, o projeto prevê a distribuição de cartões-refeição recarregados mensalmente para famílias em dificuldades. O programa tem investimento de R$ 68 milhões e previsão total de que 6 milhões de refeições sejam servidas em um ano.


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