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Pobreza menstrual atinge comunidades do litoral de SP e mulheres improvisam 'absorventes' com papel

Jovens fazem ações em comunidades para mostrar formas de se higienizar— Foto: Arquivo Pessoal

Jovens fazem ações em comunidades para mostrar formas de se higienizar — Foto: Arquivo Pessoal

"Primeiro minhas filhas, depois eu". É assim que uma moradora de uma comunidade de Santos, no litoral paulista, prioriza os cuidados higiênicos durante a menstruação. A faxineira, atualmente desempregada, Viviane Menezes de Castro, de 46 anos, relatou ao G1 que improvisa com pedaços de pano ou papel higiênico durante o período menstrual.

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A dificuldade para obter produtos de higiene pessoal, aliada a más condições básicas, é definida como "pobreza menstrual". O termo define um problema que atinge mulheres em todo o país, como aponta relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Segundo o documento, 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em seu domicílio, e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

Devido a esse problema, a Câmara dos Deputados aprovou, no fim de agosto, um projeto de lei que cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, para assegurar a oferta gratuita de absorventes higiênicos femininos. A proposta ainda vai ao Senado, e tem como objetivo combater a precariedade menstrual.

O programa pode auxiliar famílias de comunidades que, com a dificuldade financeira causada pela pandemia, tiveram ainda mais problemas para manter esses cuidados. É o caso de Viviane. Ela relata que se viu sem emprego, assim como as duas filhas, de 22 e 28 anos. Morando na mesma casa, ela repassa as doações que recebe às filhas. Para conter a menstruação, são improvisados pedaços de pano e papel, que já causaram uma infecção a ela.

"Eu já tive infecção uma vez, tomei antibiótico e chá. Foi porque papel higiênico é perigoso, é difícil. Eu penso nas minhas filhas, porque eu que as coloquei no mundo, é tudo para elas", descreve.

Sem qualquer auxílio do governo, ela conta com doações durante o período de dificuldade financeira e desemprego. Além de absorventes, itens como sabonete fazem falta no dia a dia de Viviane.

Assim como ela, outra moradora do bairro Rádio Clube passa pelo desafio de conseguir itens básicos. A cozinheira Edislaine Conceição Souza, de 30 anos, mora com quatro filhas, de 2 a 14 anos.

Muitas mulheres não têm acesso a absorventes íntimos, e formas adaptadas para conter fluxo podem trazer riscos à saúde — Foto: Alice Sousa/G1

Muitas mulheres não têm acesso a absorventes íntimos, e formas adaptadas para conter fluxo podem trazer riscos à saúde — Foto: Alice Sousa/G1

Apesar de estar trabalhando há dois meses, ela ficou desempregada no início da pandemia, se vendo na situação de precisar conseguir produtos básicos para as meninas e para si mesma. Ela priorizou as filhas, e precisou adaptar e encontrar alternativas que substituíssem o absorvente.

"O que eu consegui é do projeto", explica Edislaine, se referindo a uma instituição que ajuda a comunidade. Depois de adaptar pedaços de pano, ela conseguiu encontrar uma alternativa: o absorvente de pano ecológico. Quando teve a chance de comprar de uma conhecida, ela conseguiu driblar esse desafio, mas ainda lida com dificuldades para obter produtos de higiene básica como sabonetes, shampoos e desodorante.

Empregada há dois meses, o dinheiro ajuda nas contas da casa, e aos poucos ela consegue se reerguer. Edislaine afirma que o papel das instituições é essencial. “É um ano difícil, de perdas, tragédias. Quando a gente perde as esperanças, isso acende a luz no fim do túnel. Ajuda muitas mães”, explica.

'Item de luxo'

A responsável pela Instituição Tia Egle afirma que a pandemia piorou algo que já era um problema recorrente nas comunidades. Egle Rodrigues explica que itens de higiene são necessários, e nem sempre são a prioridade de quem vai doar ou das famílias que precisam pagar alimentação e moradia.

“Piorou muito, as mulheres têm que escolher entre comprar absorvente ou fralda para o filho. Produto de higiene se tornou luxo”, diz Egle.

Ela monta kits com produtos que recebe em doações e faz delivery de alimentos para arrecadar fundos e comprar o necessário. Egle conta que, nas comunidades, além dos produtos de higiene feminina, há necessidade de repelentes, por conta de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Esse tipo de produto não chega muito em doações, e ela precisa encontrar formas de consegui-los.

Absorvente criado por mulheres na Bahia — Foto: Arquivo Pessoal

Absorvente criado por mulheres na Bahia — Foto: Arquivo Pessoal

'Chocante'

A realidade dessas mulheres foi um impacto para a voluntária Isabela Maria de Rezende, de 19 anos, do movimento Girl Up, da Fundação das Nações Unidas. A iniciativa treina meninas para liderarem a luta pela igualdade de gênero. Isabela conta que viu diferentes realidades durante visitas às comunidades. A jovem participou de ações para ajudar a arrecadar absorventes, e visitou lugares para informar jovens sobre o ciclo menstrual e o perigo de infecções e problemas causados pela falta de higiene nesse período.

"Foi chocante. Quando a gente mostrava os absorventes, me impressionou bastante que elas tocavam morrendo de vergonha. Menstruação é, até hoje, tratado como um tabu. Quando vamos falar sobre isso nas comunidades, elas têm que conversar e avisar as mães, porque podem não gostar. Ainda tem uma barreira muito grande", diz.

Além de levar profissionais às comunidades para ensinar sobre os cuidados, as voluntárias ainda arrecadam produtos para doação. Isabela conta que as jovens que representam o movimento na Baixada Santista ficam em contato com vereadores, para levar às cidades projetos de lei voltados a essa questão.

"A gente está com um projeto de lei tramitando em Santos, Cubatão e Praia Grande, para que sejam distribuídos absorventes gratuitamente. Muitas pessoas não acham que isso seja uma causa de necessidade. Até hoje, a gente sente dificuldades para arrecadar os absorventes em si, mas, com o assunto em alta, conseguimos avançar aos poucos", finaliza.

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