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Cientistas fazem registro inédito de milhares de peixes da espécie caranha em 'agregação' reprodutiva no Sudeste

Cientistas do litoral de São Paulo registram pela 1ª vez milhares de peixes da espécie caranha em agregação reprodutiva no Sudeste — Foto: João Paulo Scola

Cientistas do litoral de São Paulo registram pela 1ª vez milhares de peixes da espécie caranha em agregação reprodutiva no Sudeste — Foto: João Paulo Scola

Pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo registraram, pela primeira vez, milhares de peixes da espécie caranha (Lutjanus cyanopterus) em agregação reprodutiva [quando centenas ou milhares de peixes se juntam para se reproduzir] no Sudeste.

Ao g1, O professor do IMar da Unifesp e um dos autores do artigo, Guilherme Pereira-Filho, explicou que a análise permitiu a comprovação de que o grande cardume com centenas de peixes com 30 Kg cada um estavam no comportamento de agregar para reprodução. "É um fenômeno que acontece normalmente, mas nunca havia sido registrado e comprovado que era uma agregação reprodutiva".

"As implicações disso são que, com isso, conseguimos demonstrar que o período antigamente previsto na legislação como período reprodutivo e, por isso, proibido da pescá-la, não estava adequado a realidade da época em que esses peixes se reproduzem", explicou.

O professor destacou que entender e descrever esse comportamento é uma contribuição muito importante da ciência para a sociedade e gestão dos recursos pesqueiros. "Como muitos peixes também andam em cardumes, há uma agregação reprodutiva e o que é exatamente um cardume".

Análise das caranhas apreendidas pela Polícia Militar Ambiental possibilitou que cientistas comprovassem o comportamento reprodutivo da caranha durante o verão — Foto: Polícia Militar Ambiental/Divulgação

Análise das caranhas apreendidas pela Polícia Militar Ambiental possibilitou que cientistas comprovassem o comportamento reprodutivo da caranha durante o verão — Foto: Polícia Militar Ambiental/Divulgação

"Do ponto de vista da ciência, a gente precisa comprovar que aquilo é um comportamento reprodutivo. Aí a gente só tem uma forma de comprovar quando a gente consegue acessar as gônadas e olhando no microscópio, com lâminas, dizer que ali acabou de ser liberado um gameta. Quando a gente percebe que naquele grupo tem machos e fêmeas e que ambos acabaram de liberar os seus gametas, a gente tem a certeza que não é só um cardume, que é uma agregação reprodutiva", disse.

Pereira-Filho reforçou que o material é difícil de ser acessado porque é necessário ter o peixe em mãos. "E observar isso, fazer uma imagem nem sempre é fácil, nessa espécie específica, que é a caranha, é bastante difícil porque é um bicho arisco".

A parte interessante do trabalho, além do resultado da pesquisa, é a forma em que os cientistas conseguiram os dados, por meio da análise de 127 espécimes capturados ilegalmente por uma embarcação de pesca em janeiro de 2021 em Santos. A partir do exame das ovas dos peixes foi possível comprovar o comportamento reprodutivo da caranha durante o verão. "A gente teve acesso a esse material pelo excelente trabalho da Polícia Ambiental".

O pesquisador concluiu que existe um descompasso em relação à época de defeso dessa espécie. "Pela primeira vez uma agregação reprodutiva desse peixe, que é de interesse comercial, foi registrada no sudeste brasileiro. É muito importante isso porque existe legislação para proteger esses recursos pesqueiros e a ideia é que a gente restrinja a não pescar essas espécies durante esses períodos reprodutivos. A época de defeso dessas espécies não corresponde com esse momento que a gente registrou".

O também pesquisador do IMar da Unifesp e autor da pesquisa, Fábio Motta, reforçou que a identificação das áreas de agregação reprodutiva de peixes é crucial para determinar medidas eficazes de gestação da pesca visando à manutenção dessas populações no ambiente. "Nossas descobertas destacam a necessidade de uma estratégia de gestão abrangente que inclua a revisão do período de defeso da pesca e programas colaborativos de monitoramento e pesquisa".

Um artigo relatando a ocorrência foi publicado em agosto deste ano na Fisheries Research. Além dos cientistas da Baixada Santista, os pesquisadores do Projeto Meros do Brasil e do Museu de História Natural do Capão da Imbuia também são coautores do estudo.

Para professor da Unifesp em Santos, existe um descompasso em relação à época de defeso da caranha — Foto: Polícia Militar Ambiental/Reprodução

Para professor da Unifesp em Santos, existe um descompasso em relação à época de defeso da caranha — Foto: Polícia Militar Ambiental/Reprodução

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