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Grafiteiro Ozi celebra 35 anos de carreira com mostra que relembra primórdios da arte urbana em SP

O grafiteiro Ozi posa diante de quadro com uma de suas personagens, 'Shirley', exposto na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

O grafiteiro Ozi posa diante de quadro com uma de suas personagens, 'Shirley', exposto na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Ozi está cansado. Montar uma exposição retrospectiva de 35 anos de carreira não é tarefa fácil. Muito menos se levarmos em conta que é preciso levar a rua, seu local de trabalho, para dentro de um espaço fechado.

O esforço de um dos pioneiros da arte urbana no Brasil faz valer a visita a um casarão na Consolação que muita gente nem sabe que é museu. A Chácara Lane, ao lado da estação Higienópolis-Mackenzie do metrô, recebe a mostra "Ozi Stencil - 35 anos de Street Art" só até o próximo final de semana, então é bom correr (veja detalhes mais abaixo).

Ozéas Duarte, artista plástico de 63 anos, conta que essa é apenas sua segunda exposição individual em São Paulo. A cidade onde nasceu é também a principal tela por onde grafitou suas obras desde a década de 1980. Aliás, "tela" não, pele, como define o artista.

"Eu digo sempre que a cidade de São Paulo tem uma segunda pele, e essa segunda pele é toda tatuada o tempo todo. São os seres que vivem nessa cidade querendo deixar ela mais bonita ou mais interessante, tatuando esse corpo o tempo todo frequentemente, passando várias mensagens, ideias, e se comunicando entre eles. É assim que eu enxergo esse universo da arte urbana", afirma Ozi.

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

As 100 obras espalhadas pelos dois andares do museu carregam mensagens que variam entre brincadeira, reflexão e crítica, muitas vezes tudo junto. Vão de pequenos objetos, como uma granada de paçoca "Amor", instalações com releituras de imagens religiosas em lareiras ou sacolas de marcas renomadas escondendo do lado de dentro a imagem de uma criança, até grandes obras que cobrem paredes inteiras, em suportes variados.

"A ocupação de cada andar do museu tem uma obra em grande formato, com o propósito de trazer o mesmo impacto que os trabalhos do artista causam nas ruas da cidade", explica Marco Antonio Teobaldo, curador da exposição e amigo de Ozi há mais de uma década.

Ozi diante de um paredão coberto de várias de suas matrizes de estêncil, parte da exposição retrospectiva de 35 anos de carreira — Foto: Fábio Tito/G1

Ozi diante de um paredão coberto de várias de suas matrizes de estêncil, parte da exposição retrospectiva de 35 anos de carreira — Foto: Fábio Tito/G1

O G1 visitou conversou com o artista sobre as alegrias e perrengues de quem faz arte na rua, e tentou entender um pouco do processo criativo desse cérebro sexagenário efusivo e transbordante. Leia abaixo a entrevista:

G1: Pra quem não te conhece, conta aí. Quem é você?

Ozi: Eu sou o Ozi, sou artista visual e artista urbano. Trabalho com a técnica do estêncil, que é uma espécie de matriz por onde a gente aplica a tinta e transfere o desenho pra parede. Estou nesse universo da street art desde 85, então já é um longo percurso. Tenho 63 anos. Dos caras que ainda pintam na rua, que são desse meu início, desse meu começo aqui na cidade de São Paulo, sou um dos sobreviventes que tá aí ainda produzindo e fazendo coisas pela cidade.

G1: E quais são suas influências? Tem alguma obra que cê lembre que te marcou quando era jovem, que te inspirou a mexer com arte?

G1: Desde muito jovem eu tinha interesse em desenhar e pintar porque eu tinha um acesso farto a história em quadrinhos, por conta dos meus irmãos; eram cinco irmãos dentro de casa. Na época, a televisão não era de fácil acesso, mas quadrinho eu pude ler e tive o tempo todo na minha mão. Aí um vizinho que sabia que eu gostava muito de desenho me trouxe um anuário do banco onde ele trabalhava, que tinha sido ilustrado com várias obras de artistas renascentistas. Essa foi a primeira referência que eu tive como arte. Foi dali que, não foi uma obra, foram algumas obras que me chamaram muita atenção. Falei 'eu quero fazer isso'. E o cara que me pegou foi o Leonardo da Vinci. Tem várias obras dele que eu acho muito interessantes, mas a que eu me pegou bastante, que eu descobri isso recentemente até, é a Mona Lisa. Que eu percebi que ela era um ícone pop muito forte, uma obra muito antiga e muito presente na vida de todo mundo. Tanto que eu fiz várias, né. Fiz várias versões dela, e eu acho incrível, que onde eu pinto não tem uma pessoa que não identifique esse ícone.

O grafiteiro Ozi posa diante de algumas de suas releituras da Mona Lisa, expostas na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

O grafiteiro Ozi posa diante de algumas de suas releituras da Mona Lisa, expostas na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

G1: Fazer arte na rua sem dúvidas envolve alguns riscos. Queria que você contasse um pouco sobre isso, já deve ter passado por umas boas histórias...

Ozi: Olha, nesse período de 30 e tantos anos, tive algumas experiências interessantes. A mais comum e a clássica é ir parar na delegacia, ir preso, responder processo... Numa das primeiras vezes, em 86, estávamos eu e dois amigos, Julio Barreto e Hudinilson Júnior. Eu pintei um gato, ele pintou um sorvete, umas bobagens. Nada era ofensivo nem tinha mensagem política. E baixou a Rota, "cês tão presos, todo mundo pra delegacia". Aí a gente chegou, o delegado era muito gente boa, jovem. "Ligaram aqui, disseram que tinha uns subversivos fazendo umas coisas nos muros". Só que naquela época a gente não tinha como provar com um celular ou uma câmera eletrônica. A gente foi pedir pros polícias que prenderam a gente, pra contar pro delegado. Um deles falou que não, não era nada sério, uns desenhos, eles são artistas. E acabou que o delegado falou assim: "Desculpa a gente ter ido lá pegar vocês, isso é uma besteira. A gente achou que era alguma coisa política". (...) Outra vez mais recente eu tava pintando ali na Brigadeiro Luís Antônio, lá embaixo, no finalzinho dela, com o Mundano. E eu tenho um grafite que é uma menininha com uma bazuca. Na rua ela carrega um texto: "Mate um político e seja feliz". Tinha terminado de pintar esse trabalho, chegou junto uma viatura da polícia. "Ô, meu senhor, o senhor não pode incitar a população à violência. Eu vou ter que prender o senhor, isso é um atentado contra a sociedade". Eu falei: "Não... Pera aí, vamos conversar. Isso é só uma figura de linguagem, eu não quero matar ninguém. Mas eu acho que se você não eleger o cara que você acha que não é bom, então você tá matando esse político. Eu acho que as pessoas precisam começar a pensar dessa maneira". Aí ele veio com uma assim: "Pois é, sabe que o senhor tem razão? Eu tenho vontade de ir lá, e se eu for, eu vou matar uns dez, mas eu vou matar mesmo!" Vai matar com arma, polícia subversiva (risos). Não contava com isso. Então a gente começou a dar risada, eu e o Mundano. Outra vez, tinha 12 pessoas pintando numa praça na 9 de Julho, aí a polícia viu que eu era o mais velho, juntou eu mais três e levou pra delegacia. Cheguei lá e eu fui acusado de "formador de quadrilha". Mas aí eu consegui tirar todo mundo do processo, levei um advogado bom pra resolver o assunto. Mas o juiz falou assim: "Se o senhor fizer isso de novo, o senhor vai passar aqui comigo e eu não vou lhe perdoar". Me ameaçou lá. Falei "Desculpa aí, foi mal". Passou uns meses tava eu de novo na rua pintando.

G1: Tem algum lugar na cidade que você olha e dá vontade de pintar?

Ozi: Teve épocas que eu tinha alguns lugares que eu queria pintar. Mas... Agora que me veio na cabeça, uma vontade que eu tinha era de customizar as colunas do Masp (risos). Isso eu sempre tive vontade, mas antes de serem pintadas de vermelho. Passou anos no concreto bruto. E eu sempre tive essa vontade de customizar aquilo ali. Falava: 'Pô, isso tá precisando de uma cor'.

G1: Mas o que você colocaria lá? Você pensava em algo específico?

Ozi: Talvez eu traria as coisas que tem dentro do Masp pra fora. Que tem um acervo incrível, o acervo é sensacional, e eu com certeza faria umas boas releituras de umas obras que tem lá dentro. Mas de uns anos pra cá eu tenho feito mais questão de pintar meu trabalho pelas bordas da cidade, pela periferia. Ultimamente é isso. Aquela borda da cidade tá lá, as pessoas estão ansiosas pra ter contato com uma arte legal, com um pensamento bacana. E lá eu aprendo também a lidar com esse Brasil que a gente diz Brasil profundo. Que a gente só enxerga o raso, não desce.

G1: Como é seu processo criativo? Parece que são muitos projetos correndo paralelamente na cabeça...

Eu tô sempre no processo, não paro nunca. É sempre pensando, sempre pensando, mas às vezes o trabalho não se concretiza. Leva um tempo. Às vezes leva um ano, leva dois anos, três anos, é uma semana, dois dias. Não tem muito uma coisa cronológica. Às vezes atropela umas coisas. O "modo Ozi" é complicado, um pouco (risos). Não é muito normal, não é muito convencional. (...) No momento mesmo, eu tô saturado, um pouco cansado do processo de construção dessa exposição de 35 anos, que me consumiu bastante. Agora eu pretendo dar uma pausinha... Pra retomar os trabalhos, tem muita coisa aqui ainda em processo.

Exposição 'Ozi Stencil - 35 anos de Street Art'

Até domingo, 19 de setembro
Curadoria:
Marco Antonio Teobaldo
Local:
Chácara Lane | Museu da Cidade de São Paulo - Rua da Consolação, 1024 - Higienópolis
Horários: de terça-feira a sexta feira, das 10h às 16h. Sábado e domingo das 10h às 17h
Grátis. Classificação livre

O grafiteiro Ozi posa diante de uma de suas grandes obras expostas na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

O grafiteiro Ozi posa diante de uma de suas grandes obras expostas na mostra retrospectiva de seus 35 anos de carreira na Chácara Lane, na Zona Central de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

VEJA FOTOS DA EXPOSIÇÃO:

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi feitas durante a juventude compõem a exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi feitas durante a juventude compõem a exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi feitas durante a juventude compõem a exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi feitas durante a juventude compõem a exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obra de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1

Obras de Ozi na exposição que celebra os 35 anos de sua carreira na arte urbana na Chácara Lane, casarão que integra o complexo do Museu da Cidade de São Paulo — Foto: Fábio Tito/G1


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