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Apesar de promessa de secretário, cidade de SP não prioriza Pfizer como reforço para idosos, mesmo tendo recebido mais doses

Vacina contra Covid da fabricante Pfizer — Foto: Carla Cleto

Vacina contra Covid da fabricante Pfizer — Foto: Carla Cleto

Apesar de o secretário da Saúde da cidade de São Paulo, Edson Aparecido, ter afirmado que o imunizante da Pfizer seria priorizado a partir de 15 de setembro como dose de reforço a idosos que já tomaram as duas doses contra a Covid-19, a orientação recebida pelos profissionais da pasta é a de aplicar a vacina que estiver disponível no posto.

Nos instrutivos, documentos que balizam a utilização dos imunizantes em toda a cidade, publicados desde então pela secretaria, a orientação a respeito da "dose adicional", ou a dose de reforço, é a seguinte: "Orienta-se a aplicação de doses adicionais podendo-se utilizar o imunizante disponível, independentemente da plataforma vacinal utilizada no primeiro ciclo".

Em 3 de setembro, quando a dose de reforço começou a ser aplicada em maiores de 90 anos, o secretário afirmou em entrevista à GloboNews: "A partir do momento em que recebermos a Pfizer, vamos priorizar a Pfizer".

E emendou: "Depois, a partir de 15 de setembro, quando o ministério deve enviar os lotes maiores de Pfizer e AstraZeneca, aí então vamos priorizar a aplicação da dose de reforço com esses imunizantes que nós vamos receber. Mas vamos dar inicio de qualquer maneira à aplicação da terceira dose na segunda-feira".

A vacina da Pfizer é a recomendada pelo Ministério da Saúde para ser aplicada como dose de reforço.

Nesta quarta, a capital recebeu, segundo a prefeitura, 831.475 doses de vacinas contra Covid-19, sendo 567.900 de Pfizer, 212.445 de AstraZeneca e 51.130 de CoronaVac.

Questionado sobre a divergência, Aparecido informou que quase a totalidade das doses aplicadas atualmente na cidade é de Pfizer.

Segundo a secretaria, a informação divulgada no instrutivo segue válida e não há previsão de que a orientação atual seja alterada. Em nota, a pasta informou que "desde o dia 15 de setembro utiliza a Pfizer para a terceira dose na capital", mas não esclareceu sobre a prioridade no uso deste imunizante.

Histórico

Em coletiva de imprensa no início do mês, a administração estadual criticou nota técnica do ministério e afirmou que a decisão do governo federal de não considerar a CoronaVac na aplicação da dose de reforço foi política (leia mais abaixo).

O plano de vacinação do governo estadual de São Paulo difere do elaborado pelo governo federal. O Ministério da Saúde recomendou a dose de reforço para pessoas com mais de 70 anos e imunossuprimidos, e determinou que a imunização deverá ser feita, preferencialmente, com uma dose da Pfizer.

Já o governo de São Paulo não estipulou o fabricante da dose a ser utilizada no reforço. Assim, a vacina deve ser a "que tiver disponível no posto de saúde no momento", segundo o plano estadual.

No entanto, estudos ainda não avaliaram todas as combinações possíveis entre diferentes marcas de imunizantes. Cientistas que estudam a pandemia criticaram a opção do governo estadual e destacaram estudos que mostram maior proteção para idosos com uma dose de reforço da Pfizer, como estipulado pelo governo federal.

Eles afirmam que a CoronaVac tem bons resultados para evitar a forma grave da doença, mas que não deveria ser a primeira opção para a dose de reforço.

Resposta imune para idosos

Idoso com mais de 85 anos recebe vacina contra Covid-19 em Recife (PE) — Foto: GENIVAL PAPARAZZI/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Idoso com mais de 85 anos recebe vacina contra Covid-19 em Recife (PE) — Foto: GENIVAL PAPARAZZI/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O pesquisador da Fiocruz, Júlio Croda, considera que a decisão do governo estadual de não utilizar a Pfizer como primeira opção para os idosos é errada.

“Concordo com o Ministério da Saúde no que diz respeito à utilização de Pfizer nos idosos e imunossuprimidos. Essa população apresenta menor resposta em termos de anticorpos neutralizantes e precisamos de uma vacina que possa induzir uma maior resposta”, disse.

Croda já foi membro do grupo de cientistas que assessorava a gestão Doria nas decisões sobre a pandemia. O Centro de Contingência foi dissolvido no último dia 16, na véspera do fim das medidas de restrição de horários e público no estado – decisão que também foi criticada pelos especialistas.

O pesquisador destacou o estudo publicado na revista The Lancet que mostrou uma resposta 10 vezes superior na produção de anticorpos neutralizantes com um reforço da fabricante Pfizer, na comparação com um reforço feito com CoronaVac. A pesquisa, vinculada à Universidade de Hong Kong, foi feita com 93 profissionais de saúde que haviam recebido anteriormente duas doses da vacina CoronaVac.

Embora a CoronaVac já tenha se provado efetiva na diminuição das internações e mortes pela Covid, o estudo comparativo com a vacina da Pfizer aponta melhor resultado justamente na população idosa, em que é mais difícil alcançar maior resposta imunológica.

No entanto, os médicos não abordaram os diferentes estudos sobre as combinações possíveis para a dose de reforço. Questionado sobre o tema por jornalistas, o coordenador do comitê contra Covid-19 de SP, o médico João Gabbardo, alegou que há vantagens na aplicação de reforço com qualquer fabricante.

"Existem trabalhos, e a própria nota técnica do Ministério da Saúde aponta o aspecto positivo também das pessoas que foram vacinadas com duas doses de receberem a terceira dose da CoronaVac", disse Gabbardo.

No Brasil, há pelo menos quatro estudos em andamento que avaliam a possibilidade de uma dose de reforço para as vacinas contra Covid-19 usadas em território nacional. Esses estudos avaliam as seguintes possibilidades:

  • Duas doses de Pfizer, seguidas de outra dose de Pfizer;
  • Duas doses de AstraZeneca (AZD1222), seguidas de uma outra dose de uma nova versão da AstraZeneca (AZD2816);
  • Duas doses de AstraZeneca (AZD1222), seguidas de uma outra dose da mesma versão da AstraZeneca (AZD1222);
  • Duas doses de CoronaVac, seguidas de um dos quatro imunizantes a seguir: Pfizer, AstraZeneca, Janssen e CoronaVac.

No entanto, não há estudos que avaliem a aplicação de um reforço com CoronaVac em pessoas imunizadas com Pfizer e AstraZeneca, por exemplo, o que poderia ser o caso de diversos idosos que devem receber a dose adicional em setembro no estado de São Paulo.

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