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O que explica estabilidade no número de mortes com aumento de casos de Covid-19

Estatísticas sobre o número de casos e de mortes, dados de hospitalização e de atendimento por sintomas respiratórios são peças essenciais para compor o cenário epidemiológico da pandemia de Covid-19.

Nos últimos dias, os boletins divulgados pelo Ministério da Saúde têm apresentado uma alta no número de novas infecções confirmadas no Brasil. Na quinta-feira (13), foram registrados 97.989 novos casos da doença. No entanto, os dados sobre óbitos permanecem estáveis, com média móvel em torno de 100 vítimas da doença por dia no país.

Especialistas consultados pela CNN explicam que o descompasso positivo entre os dois índices pode ter causas multifatoriais.

Uma das hipóteses é o indício de que a variante Ômicron, que tem se espalhado rapidamente pelo país, está associada a quadros clínicos mais leves. Outro ponto relevante é o avanço da vacinação, alcançado especialmente no segundo semestre de 2021.

A exposição de grande parte da população à infecção natural pelo vírus, o que confere certa imunidade, também pode contribuir para que o número de mortes se mantenha estável.

O impacto da variante Ômicron

A variante Ômicron do novo coronavírus foi identificada em novembro de 2021. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a compreensão atual da variante continua a evoluir à medida que mais dados se tornam disponíveis.

De acordo com a OMS, com o surgimento da variante Ômicron, houve diminuição da prevalência da variante Delta e o nível de circulação das cepas Alfa, Beta e Gama é muito baixo. Entre as 357.206 sequências disponibilizadas por cientistas no banco de dados internacional GISAID, a partir de amostras coletadas nos últimos 30 dias, 208.870 (58,5%) eram da Ômicron e 147.887 (41,4%) eram Delta.

O boletim epidemiológico divulgado pela OMS nesta semana afirma que a transmissão da variante Ômicron tem ocorrido mesmo entre vacinados ou pessoas com histórico de infecção prévia pela Covid-19. Além disso, há evidências crescentes de escape da resposta imunológica pela variante.

Na atualização, a OMS também afirma que há evidências científicas crescentes de que a variante está associada a quadros clínicos mais leves da Covid-19 em relação às outras linhagens do vírus. No entanto, a OMS reforça que os resultados encontrados são preliminares e podem não representar o perfil clínico geral da Ômicron.

A OMS alerta que o cenário epidemiológico pode mudar à medida que mais evidências estiverem disponíveis nas próximas semanas. “Como resultado disso, o risco geral relacionado à Ômicron permanece muito alto”, diz o documento.

“A Ômicron não atinge tanto a região do pulmão, fica mais focada nas vias aéreas superiores. Vemos que a maior parte dos quadros são leves, não precisam de internação. Por isso, não vemos os hospitais lotados por conta da Covid-19”, disse Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Avanço na vacinação

O avanço na cobertura vacinal para a Covid-19 também contribui para reduzir os índices no número de mortes pela doença.

Até esta sexta-feira (14), pelo menos 339.047.746 doses das vacinas foram aplicadas no Brasil segundo levantamento da CNN com base nas secretarias estaduais de Saúde. Desse total, 144.913.491 pessoas já completaram o esquema vacinal, considerando a segunda dose da vacina ou dose única do imunizante da Janssen.

“O principal fator é a vacina, tivemos uma cobertura vacinal no Brasil com mais de 65% das pessoas com duas doses. Isso definitivamente representou a proteção para a forma grave da doença e para os óbitos”, disse o médico infectologista Álvaro Furtado, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o Ministério da Saúde, mais de 381 mil doses de vacinas já foram distribuídas no país pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O que explica estabilidade no número de mortes com aumento de casos de Covid-19
Gráficos das médias móveis de casos e de mortes por Covid-19 mostram diferenças significativas / Reprodução / Conass

A diretora da SBIm, Mônica Levi, reforça que a eficácia das vacinas na proteção contra casos graves, hospitalizações e mortes está associada ao esquema completo de duas doses, para as vacinas que requerem esse regime, como a Pfizer, AstraZeneca e Coronavac.

“A eficácia de uma dose só é muito baixa, consideramos o esquema completo com as duas doses. Sabe-se que com o passar do tempo essa proteção vai caindo, com todas as vacinas. Por isso, as pessoas devem fazer, a partir de quatro meses da segunda dose, uma dose de reforço para manter a imunidade suficiente”, afirma Mônica.

Risco de sobrecarga dos serviços de saúde

Embora a Ômicron seja relacionada à doença mais leve, a variante conta com alta capacidade de transmissão. Para o infectologista Álvaro Furtado, esse fator poderá fazer com que um grande número de pessoas se infecte ao mesmo tempo, sobrecarregando os serviços de saúde e, por consequência, levando à desassistência.

“Se todo mundo contrair a doença ao mesmo tempo, vamos ter sobrecarga dos serviços de saúde. Apesar de ser leve, quanto mais casos tivermos, começarão a surgir casos graves dentro dessa totalidade. Com isso, a assistência começa a ficar comprometida pelo volume de pessoas que buscam o atendimento”, explica.

O especialista aponta que já tem sido observado um aumento gradativo no número de hospitalizações pela doença, mas que o perfil clínico dos internados apresenta diferenças em relação às primeiras ondas da Covid-19 no país.

“Nas outras ondas passamos por falta de oxigênio e de leitos de UTI por conta dos casos graves. Dessa vez, temos muito mais casos do que gravidade. Assim, o problema que estamos enfrentando é a falta de testes, não tem como testar todo mundo com o grande volume de pessoas infectadas”, afirma.

Segundo o infectologista, a grande quantidade de pessoas que já foram expostas à infecção natural pelo novo coronavírus também contribui para a manutenção do patamar de estabilidade dos índices de óbitos.

“A imunidade vacinal é mais importante que a natural. Existe um componente da imunidade natural, mas não podemos cair na história de acreditar na imunidade natural de rebanho”, afirma Furtado.

(Com informações de Julyanne Jucá, da CNN)


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