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Casal relembra fase de reconquista após mulher perder memória em acidente: 'Como se fosse a primeira vez'

Casal relembra fase de reconquista após mulher perder memória em acidente — Foto: Arquivo pessoal

Casal relembra fase de reconquista após mulher perder memória em acidente — Foto: Arquivo pessoal

Ao abrir os olhos após dias em coma, Andréa Bomfim, de 42 anos, já não reconhecia mais o rosto do marido. Em 2005, durante um dia comum de trabalho, ela sofreu um grave acidente e perdeu a memória. A recuperação e os momentos de reconquista de um casamento que perdura até hoje foram lembrados durante uma entrevista ao g1. No Dia dos Namorados, celebrado neste domingo (12), o casal completa 29 anos de união.

A vida da família Bomfim mudou totalmente em maio de 2005. O casal, que é de Sorocaba (SP), estava morando em Curitiba (PR) havia seis anos junto das duas filhas: Giovanna, que na época tinha três anos e meio, e Olívia, que tinha um ano e meio. Eles haviam se mudado pois Anderson, de 45 anos, que é formado em teologia e comunicação social, era pastor em uma igreja na cidade.

Andréa, que já era formada em psicologia, conta que na época do acidente trabalhava em um banco. Ela e o marido viviam muito ocupados com as coisas do dia a dia, a rotina com as contas e as duas meninas pequenas. "Estávamos em um ritmo alucinado. Quando eu chegava em casa, não tinha tempo e ânimo para mais nada", conta.

Com isso, no dia 18 de maio daquele ano, Andréa teve um pico de estresse e foi parar no hospital com a pressão alta. O médico havia dado uma atestado para que ela não trabalhasse no dia seguinte.

"Eu joguei aquele atestado. Disse ao Anderson que estava bem, que não ia ficar em casa, e fui trabalhar no dia seguinte".

O acidente

Na quinta-feira, dia 19, Andréa foi ao trabalho. Próximo da hora do almoço, ela saiu para pagar uma conta e dispensou a carona do pai para voltar até o prédio em que trabalhava. A poucos metros do local, parou em um semáforo e esperou o momento de atravessar.

"Tinha muito funcionário na rua e era uma avenida muito movimentada. Olhei de um lado, não vinha carro, e do outro estava fechado o semáforo. Eu fui atravessar e um motorista, que tinha passado no semáforo, viu uma vaga e deu uma ré. Ele bateu em mim e me jogou para cima de outro carro que estava estacionado. Foi tudo muito rápido".

Andréa conta que não se lembra de muitas das coisas que aconteceram nos instantes seguintes. A maioria das informações veio de relatos e do prontuário do hospital.

Próximo do local do acidente, havia um funcionário consertando uma linha telefônica, e ligou para o resgate. Alguns metros à frente tinha um terminal e uma ambulância parada.

"O meu socorro foi muito rápido. Em três minutos, eu estava na ambulância e fui para o hospital. Quem me conhecia ali do trabalho já queria brigar com o motorista. Depois me falaram que ele era um jovem de 19 anos que nem tinha carteira e que fugiu do local. Ligaram para o Anderson, e ele achou que eu tinha só machucado o joelho. Ele terminou de almoçar e foi até o hospital".

Anderson chegou ao hospital e o médico o informou que o estado de Andréa era gravíssimo. Disse que ela tinha caído com a cabeça no carro e já em choque, e que estava em um quadro de morte cerebral. Nesse mesmo instante, já entregaram a ele um saco preto com as roupas e pertences dela.

Andréa ficou 15 dias em coma, teve pneumonia e realizou uma traqueostomia. O marido, que a visitava todos os dias, ouvia o diagnóstico dos médicos, mas mantinha a posição de saber que ela sairia daquele estado.

"Foram várias fases do acidente. Nessa primeira, foi difícil mais por causa do diagnóstico dos médicos, ela estava normal e apagada. Eu não podia ter muito contato. O que a gente sabia era o que os médicos falavam. Depois de uma semana, veio a fase mais difícil, era a fase que ela acordou. Ela já tinha tomado muito corticoide, estava inchada, deformada, e foi quando ela acordou sem lembrar de nada, nem da gente", relembra Anderson.

Com desenhos e fotos espalhadas pelo quarto do hospital, Andréa não fazia a ideia de quem era seu marido e suas duas filhas. Após os dias em coma, ela ficou apenas um dia na enfermaria e foi liberada para o tratamento em casa.

"O médico explicou que, como ela bateu no lado do cérebro da afetividade, ela apagou tudo. O olhar dela apagou. Não esboçava nenhum sentimento, era muito frio. Tem uma cena que foi muito forte. Quando ela entrou em casa, as meninas vieram correndo para abraçá-la, e ela não teve reação. Ficou parada. A única coisa que ela fez foi pegar na bochecha da Olívia, mas não tinha emoção", conta o marido.

Dias de recuperação e reconquista

'O olhar dela apagou. Não esboçava nenhum sentimento, era muito frio', conta Anderson Bomfim— Foto: Arquivo pessoal

'O olhar dela apagou. Não esboçava nenhum sentimento, era muito frio', conta Anderson Bomfim — Foto: Arquivo pessoal

Nesse primeiro mês após o acidente, Andréa e Anderson ficaram sozinhos no apartamento que moravam. As duas filhas ficaram com a avó materna, que morava bem próximo.

"Eu fiquei 24 horas com ela. Ela voltou meio desorientada, então eu dava banho, comida, fazia tudo com ela. Parei a minha vida", conta Anderson.

"Eu não lembrava dele, era como se fosse a primeira vez que estivesse o vendo. Eu só sabia que ele estava cuidando de mim. Eu não tinha noção do que era carinho, não reagia a nada. Ele mostrava a fita do nosso casamento e eu não reagia", conta Andréa.

Foi então que Anderson pensou em algo para conquistá-la novamente. No mês de junho, próximo ao Dia dos Namorados, ele a convidou para um jantar e disse:

"Até o momento a sua memória não voltou, mas me deixa te conquistar de novo. Você quer namorar comigo?"

Para ela, eles começam a namorar pela primeira vez. Dias depois, o casal se mudou do apartamento para um sobrado com as duas filhas.

"Eu aprendi a vida em família de novo. Isso foi ativando a minha afetividade com eles. Nunca me senti cobrada nem por elas e nem por ele", conta.

A volta da memória

Andréa e Anderson Bomfim recebendo oração na igreja após a memória voltar — Foto: Arquivo pessoal

Andréa e Anderson Bomfim recebendo oração na igreja após a memória voltar — Foto: Arquivo pessoal

A vida foi se ajeitando e, em meio a consultas com psicólogas, fisioterapeutas e neurologistas, Andréa já havia se conformado de que sua memória não voltaria. No entanto, em um dia comum, no mês de setembro daquele mesmo ano, ela acordou, foi tomar banho e, de repente, começou a se lembrar de tudo.

"Eu não lembro o que eu estava pensando, mas tudo começou a vir na minha mente. Eu chamei o Anderson e ele começou a me fazer perguntas, do nosso casamento, nossa lua de mel, a gravidez das meninas e eu fui respondendo. Naquele dia, eu tinha uma consulta com a psicóloga e contei a ela. Lembro exatamente do que ela me disse: 'não tenha dúvidas de que foi Deus que fez'", conta.

A psicóloga sempre fazia encontros com a neurologista de Andréa e, naquele semana, elas tinham dito entre elas que a memória não iria mais voltar, pois já haviam se passado dois meses do acidente.

"Eu não tenho dúvidas, eu sei que foi um milagre. Em novembro daquele ano, eu já voltei a trabalhar, mas eu não era mais a mesma, com relação a tudo, a emoção, valores, o banco já não era mais o que eu queria. Em 2009, a gente se mudou para uma cidade do interior do Paraná, chamada Colombo, e eu me encontrei. Depois comecei a focar no que eu estudei: psicologia", explica.

Em 2013, Andréa engravidou de sua terceira filha, Pietra. No ano de 2021, a família voltou para Sorocaba.

História de amor

Fotos antigas do casal Bomfim— Foto: Arquivo pessoal

Fotos antigas do casal Bomfim — Foto: Arquivo pessoal

O casal, que completa 29 anos de união neste domingo, no Dia dos Namorados, conta que se conheceu em um acampamento de igreja em Sorocaba, em fevereiro de 1993.

"Ele era de uma banda rock e foi tocar no acampamento. Eu fiquei olhando de longe e achei ele bonito. Falei para Deus naquele dia 'eu não quero um igual e nem parecido, eu quero esse'. Tentei dar em cima dele, mas não deu muito certo", comenta rindo.

Na igreja, eles começaram a conversar com mais frequência. A amizade foi crescendo e, logo, ela já estava indo às reuniões da banda junto dele. No mês de junho, após quatro meses de paquera, ele a pediu em namoro (pela primeira vez).

"Não foi um grande pedido, foi mais uma confirmação, e eu aceitei. Eu tinha 14 e ele 16 naquela época. Namoramos seis anos. Algum tempo à distância porque ele começou a fazer a faculdade de teologia em Campinas, e um ano antes da gente se casar foi para Curitiba pastorear uma igreja. Em janeiro de 1999, nos casamos e nos mudamos para lá", conta.

Foto atual de Andréa e Anderson com as três filhas, Giovanna, Olívia e Pietra— Foto: Arquivo pessoal

Foto atual de Andréa e Anderson com as três filhas, Giovanna, Olívia e Pietra — Foto: Arquivo pessoal

Hoje, com 29 anos de união, 23 anos de casamento e três filhas, eles olham para o passado, relembram todas as situações e adversidades que passaram e celebram a vida.

"Acho que a grande lição foi valorizar mais a vida. A gente estava trabalhando muito, estava se afastando. A gente voltou a viver um plano só, um proposito só, e isso não anulou a vocação dela e nem a minha", conta Anderson.

"Estávamos distantes, naquela semana do acidente a gente tinha brigado, e eu lembro de falar 'eu não sei o que Deus vai fazer para parar a gente'. Foi uma maneira da gente se unir de novo. A gente é muito diferente, mas tem que existir disposição entre o casal em meio às adversidades, porque os dispostos se atraem. Eu ainda continuo apaixonada por ele como na época em que nos conhecemos", finaliza.

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